Arquivo de abril de 2025

terça-feira, 1 de abril de 2025

O detetive altruísta

Um sertanejo à procura de pessoas desaparecidas

O funcionário público Evanildo Rodrigues da Silva acorda com as galinhas. Todo dia útil, pula da cama às 5h30. Pouco depois, ainda de barriga vazia, já está mexendo na terra. Ele nasceu e mora em Guajeru, cidadezinha do sudoeste baiano que tem 8 mil habitantes. Ali quase não chove por causa do clima semiárido. Cortada pelo pequeno Rio do Antônio, a Caatinga domina a paisagem. “Vivo numa comunidade da zona rural, que abriga cinquenta famílias, se tanto. Em meu sítio, a agricultura e a pecuária são de subsistência. Cultivo milho, feijão, mandioca e uma porção de frutas: manga, seriguela, mamão, coco, abacate, melancia. Também crio aves, porcos e vinte cabeças de gado bovino.”
Silva auxilia o pai octogenário na roça até as 7h30. Em seguida, toma café, se arruma e corre para a Unidade Básica de Saúde (UBS) onde trabalha de recepcionista. Perto das 16 horas, reinicia a lida no campo. “O calor aqui ofende horrores. Então, é melhor cuidar dos bichos e das plantas bem cedo ou à tardinha, quando o Sol fere menos.” Logo após o crepúsculo, o funcionário público volta para a casa térrea de três dormitórios que divide com os pais, a companheira e o filho de 2 anos. No entanto, em vez de descansar, apanha o celular – um Galaxy A31 – e se dedica à tarefa diária de que mais gosta: procurar desaparecidos.
As buscas via internet consomem umas quatro horas por noite. Não à toa, Silva só vai dormir de madrugada. “Nos fins de semana, aumento a dose e banco o detetive o tempo todo.” Interrompe o rastreio apenas para jogar futebol ou participar dos cultos da Igreja Quadrangular, uma denominação evangélica pentecostal. “Comecei minhas investigações no segundo semestre de 2020, durante a pandemia, e me apaixonei pela atividade.” Daí em diante, calcula que já localizou 3,5 mil pessoas e as reaproximou de parentes queridos.

“Sou um sujeito emotivo. Por isso, sempre curti aqueles quadros da tevê que promoviam o reencontro de familiares. Passavam bastante na Record e no SBT”, relembra Silva. “Fulano de tal deixou os cafundós décadas atrás e nunca mais soube da mãe, dos irmãos, dos primos, de ninguém. Um dia, contou a própria história numa carta para o Gugu. A equipe do programa leu a correspondência, mexeu os pauzinhos e achou a parentada do cabra. Mano, aquilo me comovia à beça! Eu derramava umas boas lágrimas e matutava: como o pessoal da televisão consegue descobrir o paradeiro de tanta gente sumida?”
Mal a pandemia eclodiu, o funcionário público aproveitou o isolamento social para acompanhar grupos do Facebook em que os integrantes postavam retratos de desaparecidos na esperança de encontrá-­los. “Há muitas páginas do gênero porque não faltam crianças e adultos que se perderam pelo Brasil.” De fato: conforme o Ministério da Justiça, a polícia registrou cerca de 66 mil sumiços no país em 2024. Entre “os desgarrados”, como diz Silva, 20 mil tinham 17 anos ou menos.
Não raro, nos grupos do Facebook, internautas se voluntariavam para sair à caça dos desaparecidos e, depois, relatavam os casos solucionados. Em mensagens privadas, o funcionário público contatava os Sherlocks e lhes perguntava de que jeito resolviam os enigmas. Nenhum deles entregou o ouro. Certa vez, porém, uma mulher revelou que lançava mão de tecnologia digital. “Uso uns mecanismos de busca sofisticados”, explicou. “Você só precisa botar algumas informações sobre os sumidos ali, tipo nome completo, filiação e data ou lugar de nascimento. O computador se encarrega do resto.” Intrigado, Silva quis saber como ter acesso às plataformas. “Matricule-se num curso de detetive particular”, aconselhou a mulher.
Os tais mecanismos de busca esquadrinham uma infinidade de arquivos online, nem sempre de maneira legal. “Existem os que garimpam itens de fácil alcance na internet. Mas também existem os que vasculham acervos sigilosos, como os da Previdência Social, dos Detrans ou das telefônicas”, afirma o proprietário da Academia Federal de Investigação, uma escola porto-alegrense de detetives. Ele prefere não se identificar: “No meu ramo, quanto mais incógnito o profissional, maiores as chances de êxito.” Geralmente, as plataformas costumam cobrar uma taxa mensal de quem pretende utilizá-las.
O funcionário público – que festejará 40 anos em julho – seguiu a sugestão da mulher. Ingressou num curso à distância de detetive e, ao longo de noventa dias, desvendou os macetes do ofício. “O aprendizado me custou 600 reais, que parcelei em dez vezes, e agora gasto pelo menos 160 reais por mês para acessar os mecanismos de busca.” Os valores são elevados, já que Silva ganha um salário líquido de 1 470 reais na UBS.

Assim que terminou o curso, o funcionário público se colocou à disposição de uma vizinha, que não recebia notícias do irmão, Ramiro, havia mais de cinco décadas. O desaparecido trocou Guajeru por São Paulo durante a adolescência e evaporou. Depois de inserir os dados de Ramiro nos mecanismos de busca, Silva viu o milagre se desenhar. “Concluí que o senhorzinho estava em Toledo, um município do interior paranaense. O problema é que achei a rua do homem, mas não o endereço preciso.” O que fez, então? Abriu o Google Maps e analisou as imagens da rua até avistar uma loja que vendia ração para aves. A fachada do imóvel exibia uma placa com o telefone do estabelecimento. O funcionário público ligou no mesmo instante. “Quem atendeu disse que conhecia o Ramiro, sim. ‘Ele mora uns quarteirões adiante do meu’, detalhou. ‘Você se importa de chamá-lo?’, pedi. O cara da loja não se importou e… pronto! Matei minha primeira charada.”
Silva esclareceu o mistério de graça. A vizinha, entretanto, se sentiu tão feliz com o ressurgimento do irmão que teimou em ofertar um frango para o detetive principiante. “Só aceitei por educação. Logo que tirei o certificado do curso, decidi nunca cobrar pelos rastreamentos. Queria ajudar o próximo e nada mais. De que adianta viver sem deixar exemplos positivos?” Hoje, algumas pessoas ainda recompensam os esforços do funcionário público com presentinhos (“uma camisa, uma blusa”) ou modestas contribuições financeiras. “Mas, na maioria das vezes, minha única paga é a gratidão. Para mim, basta.”
Em média, 350 apelos de buscas pipocam semanalmente no celular dele. “Claro que não consigo acudir todo mundo. Uma pena…” Silva atrai um número tão grande de interessados porque divulga  missões bem-sucedidas no Instagram e Facebook. Sempre que localiza alguém, indaga se o desaparecido gostaria de reatar os laços com aqueles que o procuram. “Em caso de resposta negativa, não passo o contato para a família.” O funcionário público ressalta que jamais mostra o rosto nas mídias sociais. “Ofereço os meus préstimos sem me expor. A Bíblia nos alerta: ‘Quando tu deres esmola, não saiba a tua mão esquerda o que faz a direita.’ É uma lição de pudor que levo muito a sério.”
(revista piauí)

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