domingo, 1 de março de 2026

Novo mundo

Um ensaio inédito sobre a construção de Brasília

A cerimônia – sem dúvida, histórica – estava marcada para 3 de maio de 1957. Fotógrafo com algum renome no Triângulo Mineiro, Geraldo Vieira nem cogitou faltar. Queria registrar cada detalhe da celebração, embora a tarefa não parecesse fácil. Haveria gente demais por lá, sobretudo em torno do presidente Juscelino Kubitschek, o grande astro do dia. Como vencer o empurra-empurra e mostrar o político de modo original? O dilema atormentava Vieira.
Pouco antes do evento, o fotógrafo teve uma ideia amalucada. Pegou um cabo de vassoura e o levou para a marcenaria instalada na chácara onde gostava de se refugiar, em Araguari, cidade de Minas Gerais com quase 50 mil habitantes à época. Mexeu, remexeu e confeccionou um apetrecho que, meio século depois, os parentes apelidariam de trapizonga. Numa ponta do cabo, prendeu a câmera Rolleiflex que costumava usar. Em seguida, com um pedaço de arame, improvisou um disparador. Quando puxado, o fio metálico acionava a máquina. Vieira concebeu, assim, o precursor dos atuais “paus de selfie”.
Graças à trapizonga, o mineiro conseguiu fotografar Kubitschek de cima, entre bajuladores e fãs genuínos, durante a primeira missa rezada no território que iria sediar Brasília. Quinze mil pessoas acompanharam o culto, incluindo representantes do povo Karajá. Um avião da Aeronáutica buscou os indígenas na Ilha do Bananal, que fazia parte de Goiás e agora integra o Tocantins. Uma cruz de madeira, a bandeira do Brasil e uma escultura de Nossa Senhora Aparecida pontuaram toda a celebração, ministrada por dom Carlos Carmelo de Vasconcelos Motta, cardeal-arcebispo de São Paulo. A réplica da santa tinha peregrinado pelas cinco regiões do país antes da missa, que ocorreu ao ar livre, na área mais elevada do Plano Piloto, onde hoje fica a Praça do Cruzeiro.
Muitos dos presentes se divertiram com a trapizonga. Até o sisudo Israel Pinheiro – que chefiava a Companhia Urbanizadora da Nova Capital (Novacap) – abriu um sorriso mal avistou a gambiarra em ação. As cenas da cerimônia engrossam um ensaio praticamente desconhecido sobre a construção de Brasília. A série totaliza 457 negativos em preto e branco, que estão sob a guarda dos familiares de Vieira. Como juscelinista roxo e entusiasta do tão incensado “progresso nacional”, o fotógrafo visitou inúmeras vezes o canteiro de obras que se transformaria na cidade. Ele viajava para o Centro-Oeste de ônibus, carro ou avião sem nenhum objetivo profissional. Ia por mero diletantismo. Desejava testemunhar o épico acontecimento e perpetuá-lo em imagens.
Não raro, o jornal Gazeta do Triângulo publicava fragmentos do ensaio. O mineiro também divulgava uma seleção dos registros na vitrine do estúdio que mantinha em Araguari. Mais recentemente, uns poucos trabalhos acadêmicos reproduziram partes do acervo. Neste mês, quando a capital projetada por Lucio Costa e Oscar Niemeyer comemora o 66º aniversário, a editora Afluente lança Brasília: Geraldo Vieira. O livro, organizado pela jornalista e doutora em história Fernanda Torquato, reúne 130 fotos da série. Extraídas da coletânea, as dez imagens que a piauí exibe aqui são inéditas.

O fotógrafo nasceu em abril de 1911 na pequenina Estrela do Sul. Era filho de Maria Augusta e Honorato Vieira, um notório faz-tudo, que entendia de mecânica, eletricidade, marcenaria e hidráulica. Nas horas vagas, ainda bancava o luthier e manufaturava violinos. Diz a lenda que, um dia, funcionários de uma mineradora britânica o procuraram com um equipamento de raio X avariado. A multinacional explorava pedras preciosas em Romaria, município contíguo e igualmente minúsculo. Ninguém das redondezas sabia consertar o aparelho, incomum no princípio do século XX. Honorato encarou o desafio e acabou reparando a máquina.
Caçula de sete irmãos, o inventor da trapizonga herdou a versatilidade do pai e exerceu vários ofícios até abraçar a fotografia. Com 12 anos, bombeava água num garimpo de diamantes. Já adulto, gerenciou um cinema. Também se aventurou como marceneiro, mecânico e barbeiro. Não bastasse, no decorrer da vida, criou abelhas, plantou flores e cultivou uma porção de hobbies – tocava bandolim e violino, praticava tiro ao alvo, pilotava aviões e disputava provas de motociclismo. Durante uma das competições, aliás, levou um tombo feio. O escapamento da moto lhe queimou a perna, que ganhou uma incômoda cicatriz.
Ele aprendeu os primeiros segredos da fotografia em casa. Seu pai não só tirava retratos como os revelava e ampliava. De quebra, coloria algumas imagens com pincéis e lápis, à moda dos pictorialistas europeus. No começo da década de 1930, Geraldo Vieira decidiu percorrer vilarejos próximos de Estrela do Sul para fotografar moradores que precisavam de títulos eleitorais. Um velho amigo, Jorge da Costa Neto, o assessorava. O negócio prosperou, e a dupla faturou um dinheirinho.
Em 1935, assim que completou 24 anos, Vieira sentiu necessidade de novos ares e trocou Estrela do Sul por Araguari, município do Triângulo Mineiro que vivenciava um boom econômico devido à presença de duas ferrovias: a Mogiana e a Goiás. Ali o jovem adquiriu o estúdio de um italiano, perto da praça que abrigava a Igreja Matriz, e o renomeou de Foto Geraldo. Mais tarde, convidou um sobrinho adolescente – Napier do Nascimento, o Bulute – para auxiliá-lo. Ensinou-lhe as manhas da profissão, e o garoto se converteu num exímio laboratorista.
De início, em Araguari, Vieira retratava sobretudo romeiros de passagem, que se dirigiam à cidade vizinha de Monte Carmelo com o intuito de louvar Nossa Senhora da Abadia, protetora da região. Depois de conquistar a simpatia dos araguarinos, o fotógrafo pôde documentar festividades cívicas, familiares, políticas, esportivas e militares. Nada lhe escapava: comícios, aniversários, funerais, casamentos, batizados, formaturas, concursos de beleza e estreias de filmes nos cinemas locais.
As imagens que o Foto Geraldo produzia se destacaram gradativamente pelo esmero técnico. Os fregueses aplaudiam os enquadramentos perfeitos, o foco impecável, a revelação cuidadosa, o retoque primoroso e a ampliação sem manchas nem perda de contraste. Tio e sobrinho dominavam cada vez mais as diferentes etapas do ofício.
Certa ocasião, um abastado engenheiro de Araguari resolveu vender o moderníssimo estúdio em que se arriscava como fotógrafo amador. Vieira comprou o ponto com a porteira fechada e mudou de endereço comercial. A melhor infraestrutura possibilitou que o Foto Geraldo atraísse clientes de todo o Triângulo Mineiro e de Goiânia.
A vitrine do estúdio se tornou um espaço disputado. Rapazes e moças sonhavam em protagonizar as habituais exposições de retratos que o estabelecimento promovia. Se uma personalidade visitava o município, acabava merecendo lugar de honra nas mostras. Foi o caso da baiana Martha Rocha. Em julho de 1955, a Miss Brasil aceitou participar de uma festa beneficente que ajudaria o Educandário Eunice Weaver. A imagem da forasteira na vitrine do Foto Geraldo trazia uma inscrição que exaltava “o encanto e a graça” da beldade.
Com o tempo, Vieira também prestou serviços para agências publicitárias e incorporou o papel de repórter fotográfico. Suas contribuições jornalísticas saíam quase sempre na Gazeta do Triângulo. De vez em quando, chegavam às páginas do diário Estado de Minas e da revista Alterosa, que circulou entre 1939 e 1964.

O fotógrafo não inventou apenas a trapizonga. No estúdio, desenvolveu um sistema que ligava automaticamente as luzes do camarim onde a clientela se arrumava antes de ser retratada. Volta e meia, o mineiro viajava até São Paulo para obter matérias-primas da Kodak e da Fujifilm. Padres de Araguari, que coordenavam o tradicional Colégio Regina Pacis e gozavam férias na Europa, traziam da Holanda as câmeras encomendadas por Geraldo Vieira.
Ele e o sobrinho nunca frequentaram cursos de arte ou fotografia. Tudo o que sabiam resultava da observação e de experimentações. Uma vez, um dentista araguarino viu um manual sobre iluminação fotográfica numa loja dos Estados Unidos. Como gostava de Vieira e Bulute, quis presenteá-los com o volume. “Os dois vão aprender um bocado de coisa aqui”, pensou.
Logo que regressou do exterior, o dentista levou a obra para a dupla. Quando pisou no Foto Geraldo, percebeu que os retratos expostos ali não se diferenciavam tecnicamente dos exibidos pelo manual. “Uai, vocês já conheciam o livro?”, perguntou. “Nós?!”, espantou-se Bulute. “Imagine, sô! A gente nem lê inglês!”

Em 21 de abril de 1960, Juscelino Kubitschek inaugurou Brasília. Claro que o fotógrafo compareceu à solenidade. Naquele momento, estava casado havia quinze anos e tinha oito filhos. Três deles o acompanharam, além de um sobrinho (não o Bulute) e uns amigos. O mineiro acomodou a turma numa Kombi mal-ajambrada e assumiu o volante. A perua sofreu para atravessar os cerca de 400 km que conduziam à nova capital. Nas subidas, perdia tanta velocidade que exigia o engate da primeira marcha. Nas descidas, sacolejava como um liquidificador.
Geraldo Vieira deixou o estúdio sob os cuidados do quarto filho, Bruno, em 1975 e se mudou de Minas para Goiânia. Continuou fotografando até morrer de ataque cardíaco, dezoito anos depois. Os 81 605 negativos que lhe pertenciam – sem contar os do ensaio sobre Brasília – se encontram agora no Arquivo Histórico e Museu Dr. Calil Porto, em Araguari. São considerados patrimônio cultural da cidade.
O Foto Geraldo segue em funcionamento. O publicitário e professor de fotografia Henrique Vieira, neto do fundador e filho de Bruno, comanda o negócio. Ele guarda memórias inusitadas do patriarca. Lembra-se em detalhes, por exemplo, dos carros que o avô possuiu, especialmente um Ford Escort standard cinza, modelo 1983, com motor 1.3 CHT a álcool. “A gente adorava falar de mecânica. Muitas vezes, sentávamos à mesa do almoço, na sala, para desmontar carburadores. Fazíamos uma bagunça danada enquanto o cheiro de combustível se espalhava pelo ambiente. Minha avó, Célia de Souza, ficava enlouquecida.”
(revista piauí)

domingo, 1 de fevereiro de 2026

Zirigui tã-tã-tã-tããã

Uma flautista polonesa no desfile do Salgueiro

Não existe nada equivalente à palavra borogodó em polonês. Talvez os termos que mais se aproximem da melódica expressão sejam wdzięk (graça) e charyzma (carisma). Mesmo assim, Marta Klimczak esbanja borogodó – ou molejo, bossa, gingado. “Não exagere”, contesta a polonesa de 35 anos. “Para uma gringa, até que impressiono. Mas perto das brasileiras…”
Ela é passista do Salgueiro e, desde novembro, treina pesado no Rio de Janeiro com a intenção de “quebrar tudo” durante o Carnaval. “Ensaio 90 minutos às terças-feiras e duas horas e meia às quintas.” Também atravessa as noites e madrugadas de sábado em exibições que sacodem a quadra da tradicional escola de samba. Um domingo por mês ainda se apresenta nas feijoadas que a agremiação organiza para arrecadar fundos.
O Salgueiro, criado há sete décadas, reúne pelo menos 3 mil foliões. Uma parcela reduzida deles vem de outros países, especialmente das Américas e da Europa. Klimczak (pronuncia-se “clintchaque”) chama atenção entre os sambistas estrangeiros porque, antes de cair no ziriguidum e no telecoteco, abraçou o tum-tum de Ravel e o tã-tã-­tã-tããã de Beethoven. “Eu tocava flauta transversal em orquestras da Polônia e lecionava música clássica.” Loira de olhos azuis, a passista mede 1,70 metro. Tem o rosto ovalado, um porte vigoroso e a pele bronzeada. “Se pego Sol, não fico vermelha, não! Fico dourada”, esclarece, sem dissimular o orgulho.

Toruń, a cidade natal de Marta Klimczak, se localiza às margens do extenso Rio Vístula. Com quase 170 mil habitantes, ganhou fama pela arquitetura gótica, pelos pães de gengibre e por ser o berço do astrônomo Nicolau Copérnico (1473-1543). No jardim da infância, a sambista já arrastava as asas para tamborzinhos, xilofones mirins e flautas doces. Os pais notaram o interesse da filha e trataram de adquirir um punhado de CDs eruditos, que a garota ouvia junto da irmã gêmea, hoje comissária de bordo.
A passista começou o aprendizado de música clássica assim que completou 10 anos e o prolongou até finalizar o mestrado. Durante o percurso, frequentou escolas tanto na Polônia quanto na Alemanha e Suécia. “Foi dificílimo. Os professores exigiam bastante de nós. Houve fases em que estudávamos dez horas por dia. Mal sobrava tempo para aproveitar a vida”, conta Klimczak.
Quando menina, a aluna apreciava sobretudo os compositores românticos, como Tchaikovsky e Chopin. Mais tarde, descobriu o barroco e morreu de amores por Bach. Nos raros momentos de folga, curtia pop americano (Britney Spears, Christina Aguilera, Back­street Boys) e bandas polonesas de rock (Coma, Strachy Na Lachy, Happysad). “Eu adorava dançar em baladas.”
Depois de concluir os estudos, a musicista integrou duas orquestras respeitáveis: a Sinfônica de Toruń e a Filarmônica Báltica de Gdańsk. Em paralelo, dava aulas de flauta transversal para crianças e adolescentes. Certa ocasião, um violonista manifestou o desejo de trabalhar com a colega. Nasceu, então, o duo Os Solistas. “Tocávamos apenas canções de Tom Jobim. Nosso repertório de doze músicas incluía Chega de saudadeDesafinado e Garota de Ipanema. Eu admirava o Jobim porque já conhecia a Bossa Nova. Sabia que as composições dele soam muito bem na flauta e no violão”, recorda Klimczak. O duo se exibia em bares e restaurantes, entre um concerto e outro das orquestras que empregavam a flautista

Conhecer a Bossa Nova não significava conhecer o Brasil. Quando formou a dupla, a instrumentista ignorava quase tudo do país. “No colégio, só aprendi que o Brasil é abafado e gigante.” Telejornais poloneses costumavam mostrar o Sambódromo do Rio em pleno Carnaval, mas as cenas – geralmente curtas – não seduziam a futura passista. “Uma vez, numa feira de rua, minha mãe comprou um top amarelo para mim.” A frente da roupa trazia a inscrição “Brasil” em verde. Apesar de o substantivo não lhe dizer grande coisa, a menina gostou do presente. “Me apaixonei rapidinho pelas cores e não tirei mais o top.”
Em julho de 2019, com ajuda da irmã, Marta Klimczak conseguiu uma passagem aérea barata para o Chile, onde ficou alguns dias. Como ainda tinha umas semanas de férias, decidiu esticar a viagem por terra. Foi à Bolívia e depois explorou o Sul do Peru. Em Cusco, um grupo de turistas propôs: “Visite o Brasil. Está perto daqui e é tão bonito…”
Lembrando-se de Tom Jobim e do top amarelo, a viajante atendeu à sugestão. Rumou para o Acre também por terra e, de lá, voou até o Rio. Baixou num hostel da Lapa, deixou as bagagens e saiu andando pela vizinhança. “Era de manhã. Caminhei um pouquinho e me roubaram, acredita?” Indignada, jurou que permaneceria o resto da temporada carioca dentro do hostel. O clamor da noite, porém, a fez mudar de ideia. Num bar dos arredores, a polonesa se engraçou com um mineiro que não apenas falava inglês como demonstrou ser um exímio dançarino.
À época, Klimczak sentia falta de movimentar mais o corpo. “Repare que músicos eruditos quase não se mexem. Tocar em orquestras requer gestos muito precisos, muito sutis. Por isso, depois de iniciar minha carreira, busquei praticar crossfit, salsa e high heels dance para aliviar as tensões.” As atividades, entretanto, não a satisfaziam plenamente. “Acabei largando todas.”
No Rio, a viajante acompanhou o mineiro em festas onde o samba e o forró corriam soltos. Os ritmos frenéticos a enfeitiçaram. “Impossível descrever a alegria que tomou conta de mim.” Não por acaso, logo que regressou à Europa, Klimczak entrou em depressão. “A informalidade e a energia do Rio me abriram os horizontes. Percebi que meu cotidiano na Polônia havia perdido o sentido.” Ela queria chutar o balde, mas ainda não dispunha de coragem nem de recursos para tanto.
Em março de 2020, a pandemia do coronavírus eclodiu. Com mais tempo livre, devido às restrições sociais, Klim­czak resolveu fazer as oficinas online de Katarzyna Stocka-Dapiaggi, a Kashira, concorrida professora polonesa de “samba no pé”. A principiante se revelou uma bailarina tão hábil que dobrou a aposta e procurou coreógrafos brasileiros. Primeiro, encontrou Liani Devito. Depois, Alex Coutinho. Ambos também ofereciam aulas pela internet.
Os cursos pavimentaram a trilha para Klimczak desfilar nos carnavais de 2022 e 2023 por escolas de Niterói (Acadêmicos do Cubango) e do Rio (Em Cima da Hora, Paraíso do Tuiuti e Império da Tijuca). Graças à experiência, a passista – que está solteira e não tem filhos – arriscou um salto ainda maior. Tirou uma licença profissional e morou dezoito meses na capital fluminense (entre outubro de 2023 e abril de 2025). Pôde, assim, se aprimorar como sambista e aprender português.
Quando retornou do sabático, virou finalmente a mesa. Abdicou dos empregos e imigrou: trocou a Polônia por Ayia Napa, cidade do Chipre onde protagoniza shows de samba em hotéis. Agora, enquanto treina sob a batuta do Mestre Carlinhos para sair no Salgueiro pela primeira vez, garante que não voltará à música clássica. “Sambar é tudo de que meu corpo e minha alma precisam.”
(revista piauí)

segunda-feira, 1 de dezembro de 2025

Olhos emprestados

Duas irmãs unidas pela literatura (e pelo telefone)

Elas nasceram em março e convivem há nove décadas. A mais velha é carioca. A mais nova, paulistana. Na infância, brincavam de roda, pulavam corda e andavam de bicicleta em ruas de terra. Otimistas incuráveis, gostam de mesas bem-postas, festas, praia, flores e moda. Na juventude, assinaram a revista francesa L’Officiel, bíblia da alta costura que impulsionou a carreira de Yves St. Laurent, Christian Dior e Pierre Balmain. Também estudaram ciências sociais, um atrevimento para as moças da época, que dificilmente cursavam faculdade. Casaram-se em 1956 com homens que ainda consideram muito gentis. Viraram mães e avós, mas não tiveram bisnetos. Depois de viúvas, descartaram outras uniões conjugais. Embora sejam irmãs – as primeiras numa família de cinco filhos –, juram que nunca brigaram. Quem as vê juntas, sempre tão entrosadas e risonhas, não duvida.
Com 96 anos, Rilda Machado Lorch desconhece as benesses e os incômodos da fama. Em contrapartida, Ruth Machado Lousada Rocha, de 94, está sob os holofotes desde a meia-idade, já que se tornou um mito da literatura infantojuvenil no país. De 1976 para cá, publicou 218 livros, que venderam 40 milhões de exemplares. O reizinho mandãoNicolau tinha uma ideia e Marcelo, marmelo, martelo figuram entre seus clássicos. Traduzida em 25 idiomas e integrante da Academia Paulista de Letras, Ruth Rocha – nome que adota profissionalmente – recebeu várias honrarias, incluindo oito prêmios Jabuti e a Comenda da Ordem do Mérito Cultural, entregue pelo então presidente Fernando Henrique Cardoso. No primeiro semestre de 2024, renovou o vínculo com a Salamandra, editora do grupo espanhol Santillana. O acordo despertou a atenção da mídia por se estender até 2039, quando a escritora completará 108 anos. Numa entrevista para o Fantástico, da TV Globo, Ruth declarou que negociou a renovação sem se preocupar em fazer cálculos sobre a passagem do tempo. Ela própria estranhou a displicência matemática, que classificou de engraçada, e ponderou: “Evidentemente, não vou cumprir o contrato.”
O envelhecimento, insensível como de hábito, trouxe danos oculares à autora. Um glaucoma lhe causou sérios prejuízos numa das vistas e diminuiu a capacidade da outra. Em consequência, Ruth deixou de ler com desenvoltura. As palavras agora perdem a nitidez e os olhos se cansam depressa. Lógico que o problema a chateou. A escritora, afinal, descobriu o prazer da leitura ainda menina e o cultivou sem tréguas pela vida afora.
Assim que soube da dificuldade, Rilda propôs uma compensação à irmã. Ruth a visitaria todos os sábados. As duas bateriam papo e, depois, almoçariam. Quando terminassem a refeição, a mais velha leria para a mais nova. “Escolha qualquer livro. Minhas predileções não estão em jogo”, salientou Rilda. O esquema funcionou às mil maravilhas, apesar dos trinta e tantos quilômetros que separam a dupla. Ruth mora nos Jardins, bairro rico de São Paulo, enquanto a irmã se refugia em Aldeia da Serra, um condomínio arborizado, fora da capital. “Costumo usar os serviços de um taxista bastante prestativo”, diz a autora. “Ele me leva para onde preciso, aguarda na porta e me traz de volta.”
Em 2020, porém, a pandemia azedou o arranjo fraterno. O isolamento social impediu as irmãs de se encontrarem. Rilda não recuou e decidiu continuar as leituras por telefone. Detalhe: em vez de emprestar os olhos à irmã mais nova apenas no sábado, iria fazê-lo com uma frequência bem maior. Desde então, diariamente, às 16 horas, liga para Ruth e lê o que a escritora quiser até as 17. “Telefono inclusive nos fins de semana”, frisa Rilda. “Não me dá trabalho nenhum. Pelo contrário: sinto imensa alegria. Eu também amo literatura. E sou uma desocupada, né?”, ironiza. “A Ruth, não. Está sempre cheia de compromissos. O que me custa ajudá-la?”
As duas só abdicam da reunião literária se houver imprevistos. Tamanha regularidade já permitiu que compartilhassem 65 livros, entre biografias, reportagens, ensaios, ficções e relatos de divulgação científica. “Se não me falha a memória, começamos com um romance russo”, afirma Rilda. “Talvez Os irmãos Karamazov, do Dostoiévski, ou Guerra e paz, do Tolstói. Não importa… Certo mesmo é que a gente leu os dois.” Na contramão do século XXI, as leituras jamais ocorrem por celular. A dupla prefere aparelhos fixos.

O apego das irmãs pelas palavras se deve, em parte, às habilidades narrativas de um ferroviário calvo e baixinho que lhes marcou a infância: o Vovô Ioiô. Paraense de raízes baianas e primo distante do poeta Castro Alves, o avô materno de Rilda e Ruth vivia na Zona Norte do Rio de Janeiro, idolatrava Getúlio Vargas e não dispensava cigarro forte nem feijão preto, pimenta muito ardida e cerveja gelada. Ele deslumbrava as crianças da família com uma porção de histórias intrigantes, ora extraídas do folclore nacional, ora de contos populares europeus ou árabes.
O curioso é que o carismático narrador alterava as tramas originais para ambientá-las numa Bahia fantasiosa, onde existiam lugarejos como um tal Caixa-Pregos. Vovô Ioiô sempre dava um jeito de os casos acabarem em festas magníficas, normalmente de casamento, que esbanjavam babas de moça, cocadas, pés de moleque, brigadeiros e paçocas. “Imaginem uma farra das boas”, sugeria o ferroviário à garotada. “Havia tanto doce por lá que resolvi trazer alguns para vocês. Botei os mais deliciosos numa bandeja e saí de fininho. Só que, descendo a Ladeira do Escorrega, tropecei e… perdi tudo!”
O pai de Rilda e Ruth, o proctologista carioca Álvaro de Faria Machado, também gostava de contar histórias, às vezes fictícias, outras vezes reais. Nos sábados e domingos, logo depois do almoço, fazia questão de permanecer à mesa com os cinco filhos e a mulher, a dona de casa Esther Sampaio Machado, igualmente carioca. “A gente gastava horas ali, conversando sobre os mais diversos temas”, recorda a escritora. Durante os papos, o médico relatava de maneira serena e didática o que estava acontecendo no Brasil e no exterior. Um dia, por exemplo, abriu o mapa-múndi e explicou a Segunda Guerra, ainda em curso.
Leitor compulsivo, Álvaro adorava romances de capa e espada, cujos enredos se passavam na Europa, entre o final do Renascimento e o período napoleônico. Traições, vinganças, suspense, intrigas políticas e duelos de esgrima temperavam as aventuras. “Meu pai apreciava sobretudo a série Les Pardaillan, do Michel Zévaco”, lembra Ruth. O jornalista, escritor, cineasta e anarquista corso lançou os dez livros da coleção no começo do século XX, de início como folhetins, e atingiu um tremendo sucesso. Os episódios, que se desenrolam de 1553 até 1614, abordam inúmeros fatos históricos da França e da Espanha. Na autobiografia As palavras, o filósofo Jean-Paul Sartre revelou que, quando menino, venerava “o talentoso” Zévaco: “Seus heróis representavam o povo; construíam e desfaziam impérios, anteviam a Revolução Francesa […], protegiam por bondade d’alma reis infantes ou reis loucos […] e esbofeteavam os reis perversos.”
Atualmente fora de catálogo, as traduções em português de Les Pardaillan seduziram algumas gerações de brasileiros. Álvaro comprava os volumes da série assim que chegavam às lojas e, depois de saboreá-los, os emprestava para os filhos. O status de primogênitas garantia que Rilda e Ruth devorassem as aventuras antes dos irmãos, bem mais jovens.
Graças à mãe, as duas conheceram Monteiro Lobato e o Sítio do Picapau Amarelo na primeira infância. Embora não se interessasse tanto por literatura quanto o marido, Esther mantinha a rotina de ler em voz alta as peripécias de Dona Benta, Tia Nastácia e companhia. “Nós ouvíamos aquilo absolutamente fascinadas”, afirma a escritora, que virou fã de Emília, a boneca tagarela. “O bom humor da personagem influenciou muito o meu estilo.” As leituras maternas se mostraram tão cativantes que Reinações de Narizinho continua sendo o livro infantil preferido de Ruth.
“Tivemos pais disciplinadores, mas nada controladores. Eles nunca censuravam o que a gente lia. Podíamos explorar qualquer título nas estantes da sala – uma liberdade que contribuiu para aguçar nossa afeição pela literatura”, avalia Rilda. Como Álvaro e Esther valorizavam o estudo, toda a prole concluiu o ensino superior. O casal proporcionou às três filhas as mesmas oportunidades que os dois filhos receberam. “Crescemos num lar afetuoso e democrático. Lá o preconceito não prosperava”, diz Ruth.

Ainda bebê, Rilda deixou o Rio e desembarcou em São Paulo, onde a família acabou se enraizando. Pouco depois dos 15 anos, a adolescente visitou a recém-inaugurada Seção Circulante da Biblioteca Municipal (hoje Biblioteca Mário de Andrade). Localizado no Centro paulistano, o acervo reunia milhares de livros que os usuários consultavam in loco ou pegavam emprestados. “Fui por recomendação de um professor e carreguei a Ruth, que não desgrudava de mim.” Mal avistou o mundaréu de volumes, a futura escritora de somente 13 anos se empolgou: “Vou ler todos!”
Não leu, claro, mas se transformou em frequentadora da seção e fisgou ali preciosidades inexistentes nas prateleiras domésticas dos Machado. Primeiro, enveredou pelas ficções históricas e crônicas de Paulo Setúbal – àquela altura, um autor de renome. Em seguida, desbravou As vinhas da ira e os demais romances do americano John Steinbeck, repletos de críticas sociais. Descobriu, ainda, os versos de Olavo Bilac e outros “poetas antiguinhos”.
Na mesma época, “levou uma trombada” de As cidades e as serras. O colégio lhe solicitou um arrazoado sobre o clássico do português Eça de Queirós, lançado em 1901. A trajetória de Jacinto, o protagonista do romance que se desilude com a modernidade urbana, impactou Ruth profundamente e consolidou a paixão da jovem pelo universo literário.
Rilda também usufruiu um bocado da Seção Circulante. “Li Casa-grande & senzala, do Gilberto Freyre, quando tinha 16 ou 17 anos. Salvo engano, garimpei a obra na Biblioteca Municipal.” Em paralelo às leituras densas, a adolescente se permitia desfrutar de “uns livros tontos”, como os de M. Delly, pseudônimo dos irmãos Frédéric Henri e Jeanne Marie Henriette Petitjean de la Rosiére. O duo francês, católico fervoroso, encantou zilhões de mocinhas com quase 180 dramas de amor em que a coragem, a honra e a virtude sempre venciam. Entre as décadas de 1930 e 1960, a Companhia Editora Nacional, fundada por Monteiro Lobato, publicou traduções de parte da coleção.
Logo que terminou o ensino médio, Rilda tomou a decisão de estudar letras, mas rapidamente se decepcionou com a faculdade. Não suspeitava que iria detestar o aprendizado minucioso da gramática luso-brasileira. Enquanto a irmã penava, Ruth frequentava a Escola de Sociologia e Política, na USP. Certa manhã, chamou a mais velha para ver uma aula do professor Mauro Brandão Lopes sobre parlamentarismo inglês. “Fiquei tão envolvida pelo assunto que resolvi mandar a gramática às favas”, diz Rilda. Abandonou as letras e ingressou na mesma escola de Ruth. Por tabela, abraçou o movimento estudantil. Nacionalista, proclamava-se de esquerda, embora rejeitasse o comunismo (“nenhum regime ditatorial me agrada”). No auge do ativismo, se elegeu vice-presidente do centro acadêmico, vaiou Carlos Lacerda – o inimigo número um de Getúlio Vargas – e militou ao lado de rapazes que mais adiante iriam ocupar cargos significativos, caso de Almino Afonso (ministro do Trabalho no governo de João Goulart), Rubens Paiva (deputado federal pelo antigo PTB) e José Gregori (ministro da Justiça na gestão de FHC).
Depois de fazer ciências sociais, Rilda começou uma especialização em economia, que interrompeu para se casar com um químico e empresário de origem judaico-alemã. “No fim das contas, não exerci a profissão de socióloga nem a de economista. Como gerei três filhas, uma atrás da outra, cuidei exclusivamente das meninas por uns dez anos. Só então decidi trabalhar na fábrica do meu marido. Ele produzia extintores de incêndio.” No princípio, Rilda executava serviços de escritório. Assim que se inteirou melhor dos processos industriais, criou um “puxadinho” dentro da fábrica, onde manufaturava cachepôs cromados.
As empreitadas do casal floresceram até a década de 1980, quando as coisas desandaram em decorrência da hiperinflação. O país derreteu, e a fábrica fechou. O marido de Rilda abriu outros negócios, mas nenhum decolou. Ela acabou arrumando um emprego administrativo na Fepasa, estatal que controlava o sistema ferroviário de São Paulo. “Também me dediquei à tradução de livros em inglês. Eram sempre romances água com açúcar, daqueles de arrancar lágrimas. Eu não me sentia capaz de enfrentar textos muito complicados.”
Rilda afirma que, ao contrário da irmã, jamais cogitou escrever ficção. Nem por isso se esquivava de fantasiar diante das crianças nos encontros familiares. “Ela narrava histórias divertidas para a gente”, diz a sobrinha Mariana Rocha, filha única de Ruth. As tramas giravam em torno de Lúcia, uma garota com superpoderes. Além de voar, a personagem tinha o dom da invisibilidade e chupava um sorvete que nunca terminava.
“Por ser a primeira dos cinco irmãos, Rilda adotava uma postura matriarcal quando jovem”, relata o jornalista Alexandre Machado, o caçula do quinteto, que festejou 80 anos em outubro. “A gente costumava viajar para o litoral sem os nossos pais e ficar sob a responsabilidade dela. Numa das viagens, Rilda ordenou que comêssemos verdura. Pronto: nós a apelidamos de Mamãe Bronquinha, e o apelido permanece até hoje.”

Enquanto cursava a Escola de Sociologia e Política, Ruth teve aulas com a psicanalista Virgínia Bicudo, pioneira entre as professoras universitárias negras do país, e com o historiador Sérgio Buarque de Holanda. O autor de Raízes do Brasil, ensaio obrigatório sobre a formação da identidade nacional, impressionou a aluna não só dentro da classe. Em 1949, alguns estudantes fizeram uma excursão por Belo Horizonte e Ouro Preto. Buarque de Holanda se encarregou de acompanhá-­los. Mais de seis décadas depois, em janeiro de 2012, Ruth – que participou do passeio – o evocou num artigo publicado pela Folha de S.Paulo. Contou que, ao longo da jornada, o professor se revelou “alegre, informal, um ótimo companheiro”. “Ele cantava conosco e jogava nossos jogos.” No hotel de Belo Horizonte em que todos se alojaram, havia um piano. Para surpresa dos jovens, o historiador não o deixou passar em branco. Tocou com descontração, ainda que precariamente.
Da capital mineira, pupilos e mestre viajaram de trem até Ouro Preto, aonde chegaram à noitinha. No dia seguinte, Ruth e duas colegas encontraram Buarque de Holanda tomando café da manhã sozinho. Ele sugeriu ciceroneá-las pela cidade. “Foi uma maravilha!”, resumiu a autora na Folha. O professor apanhou o Guia de Ouro Preto – que o poeta Manuel Bandeira escrevera em 1938 –, alugou um carro e percorreu lugares marcantes do município: as igrejas de Santa Ifigênia e São Francisco de Assis, a Basílica de Nossa Senhora do Pilar, a Ponte dos Suspiros, o Largo do Rosário, o Chafariz de Marília… À medida que visitava os pontos turísticos, Buarque de Holanda chamava a atenção para detalhes que as três moças não notariam por conta própria.
Na excursão, durante as cantorias dos alunos, o historiador se espantou com o fato de Ruth conhecer modinhas do período imperial. “Eu também sabia um monte de marchas carnavalescas”, diz a escritora. Uma tia e a avó Neném, mulher do Vovô Ioiô, lhe ensinaram o repertório. “Sempre gostei de cantar”, prossegue Ruth. “Quando criança, me apresentei em programas infantis de rádio.” Depois, já adulta e por mero hobby, interpretava hits de Ella Fitzgerald, Sarah Vaughan e Billie Holiday no Café Piu Piu, casa noturna do Bixiga, o bairro paulistano de influência afro-italiana. Os espetáculos, semanais, ocorriam às segundas-feiras. Em família ou rodas de amigos, a autora ainda se arriscava no violão. Dedilhava principalmente o cancioneiro de Noel Rosa. Agora não toca nem canta mais. “Sofro de artrose nas mãos e perdi a voz.”
A maternidade nunca a impediu de trabalhar fora. O marido da escritora, um industrial e desenhista, confeccionava artefatos de couro. Entre as décadas de 1950 e 1970, Ruth engrossou o orçamento doméstico como funcionária do tradicional Colégio Rio Branco, em que estudou na adolescência. Exerceu primeiro a tarefa de bibliotecária, apesar de já ter o diploma de ciências sociais. “Criei um elo muito forte com os alunos menores. Eles viviam no meu pé: ‘Dona, quero um livro engraçado! Dona, me arranje uma história de aventura!’ Eu amava.” Mais tarde, se tornou orientadora educacional e fez uma pós-graduação na área.
Em 1965, virou colaboradora da Claudia. A revista feminina, editada pela Abril, procurava alguém que redigisse artigos sobre educação. Por estar se destacando no Rio Branco, Ruth ocupou o espaço. Passaram-se quatro anos, e a orientadora educacional recebeu outra missão da Abril: bolar, também como freelancer, exercícios que desenvolvessem o raciocínio e a psicomotricidade das crianças. Uma nova revista da editora, voltada para meninos e meninas, iria divulgá-los. Assim, Ruth integrou a equipe precursora da Recreio, projeto que nasceu quinzenal e, após onze números, se converteu em semanal. Rapidamente, a publicação atingiu a tiragem de 800 mil exemplares mensais.
Com a máxima “Leia e pinte, corte e brinque”, a revista oferecia um cardápio sortido: desde reportagens, contos e poemas até brindes, quadrinhos e os tais exercícios – passatempos, adivinhações e testes. A Abril retirou o produto do mercado na década de 1980 e o ressuscitou no início do século XXI. Em 2014, vendeu a marca para a Editora Caras (atual Grupo Perfil), que hoje a explora sobretudo via internet.
Durante a primeira encarnação, a Recreio lançou e alavancou nomes essenciais da literatura infantojuvenil, como Joel Rufino dos Santos, Ana Maria Machado, Sylvia Orthof e Marina Colasanti. Todos assinavam narrativas coloquiais, que geralmente espelhavam o cotidiano dos pequenos leitores. Certos textos, porém, mergulhavam no fantástico e retratavam manifestações do folclore brasileiro. De maneira um tanto enviesada, Ruth logo ingressou no time de autores.

Ela nunca havia escrito ficção antes de chegar à revista. Quer dizer: havia, sim – nas longínquas redações escolares. Depois que se tornou mãe, resolveu criar histórias outra vez, mas somente para distrair a filha. Não cogitava botá-las no papel. “Mariana se interessava demais pela realidade. Ficava intrigada com objetos corriqueiros e me fazia perguntas do tipo: ‘Qual a origem do garfo? E da mesa? E do cinzeiro?’ Eu nem sempre sabia a resposta”, conta Ruth. Por isso, disparava umas explicações amalucadas, que atiçavam a imaginação da garota.
“Verdade!”, reitera a filha, de 63 anos. “Minha mãe também lia bastante para mim.” Entre as obras prediletas da menina, sobressaiam as de Monteiro Lobato e Flicts, o best-seller de Ziraldo. Mariana se recorda, ainda, de um livrinho do poeta Jacques Prévert, L’opéra de la lune, que Ruth traduzia do francês no decorrer da leitura em voz alta. “Tão bonito… As ilustrações de Jacqueline Duhême me tiravam o fôlego. Pareciam telas do pintor Marc Chagall”, compara a filha.
A atriz e jornalista Sônia Robatto, que idealizou e dirigia a Recreio, costumava ouvir as respostas mirabolantes de Ruth para Mariana. “Você é uma excelente contadora de histórias! Por que não escreve?”, indagava. Ruth desconversava: “De jeito nenhum! Não consigo…” Um dia, meio de gozação, meio a sério, Robatto trancou a subordinada (e amiga) numa sala com uma máquina de datilografia: “Você só vai sair daqui quando escrever alguma coisa.” Ruth concebeu, então, Romeu e Julieta. A trama, baseada na tragédia de William Shakespeare, tratava de duas borboletas – uma azul, outra amarela – que não podiam se divertir juntas porque tinham cores diferentes. “Logo de cara, quis me posicionar contra o preconceito, um assunto que debati muito na Escola de Sociologia e Política.” A Recreio publicou o texto em 1969 e inaugurou a carreira literária da colaboradora. “Eu já estava com 38 anos. Comecei tarde.”
A partir daí, a revista abrigou tanto os exercícios quanto diversas ficções de Ruth, que se transformariam em livros no futuro: Teresinha e GabrielaO dono da bolaO nosso amigo Ventinho, Marcelo, marmelo, martelo… “Perdi a inibição de escrever à medida que escrevia. A profissão escolhe a gente, e a gente inventa a profissão”, diz a autora. Ela abraçou as novas atribuições com tamanho entusiasmo que, em 1972, decidiu largar o Colégio Rio Branco e se dedicar apenas à indústria cultural. Depois de uma breve passagem pela revista infantil Bloquinho, da Bloch Editores, voltou para a Recreio, agora como funcionária. Subiu degraus e alcançou o cargo de redatora-chefe. Em seguida, fez um estágio sobre editoração nos Estados Unidos e comandou o departamento de publicações infantojuvenis da Abril.  
A escritora desempenhou outras atividades executivas dentro da empresa até 1981, quando a deixou. Continuou atuando na mesma área por onze anos e fundou, inclusive, uma editora, a Quinteto, da qual acabou se desligando. Hoje o negócio pertence à FTD Educação. Ruth ainda trabalhou como comentarista política. Integrava a bancada fixa de um telejornal vespertino na TV Gazeta, de São Paulo. Em 1995, se aposentou de tudo, menos da literatura. Desde então, reserva todos os esforços à escrita. Seu primeiro livro – Palavras, muitas palavras… – é uma cartilha com rimas e saiu em 1976: C de casa/de cola/De coruja e de cartola/de cobra/E de chinelo/De camelo e de castelo. Já a obra mais recente, de 2023, reúne vários gêneros de textos (poemas, fábulas, provérbios) para discorrer sobre os primatas e o evolucionismo. Chama-se O grande livro dos macacos.
Além dos títulos originais, a bibliografia de Ruth abrange traduções do inglês e releituras de contos populares estrangeiros, a exemplo de O patinho feioAli Babá e os quarenta ladrõesChapeuzinho VermelhoA Pequena Polegar e Cachinhos Dourados. A autora também adaptou a Ilíada e a Odisseia, épicos do grego Homero. O marido dela, Eduardo Rocha, ilustrou ambas as versões. Com um pé no lúdico e outro no reflexivo, as produções da escritora inspiraram músicas, peças teatrais e uma série da Paramount+ (Marcelo, marmelo, martelo).

A literatura infantojuvenil brasileira vivia uma reviravolta quando a Recreio despontou. Até as duas últimas décadas do século XIX, a maioria das ficções para crianças e adolescentes do país vinha da Europa, principalmente da França e da Alemanha. As editoras que mais as ofereciam ficavam no Rio de Janeiro: a Garnier, do francês Baptiste Louis Garnier, e a Laemmert, dos irmãos alemães Henrique e Eduardo Laemmert. Quase sempre, as tramas chegavam aqui em português lusitano, repletas de termos como “mariola” (patife), “treita” (pegada) e “caçoula” (caçarola). A disparidade linguística dificultava a compreensão da meninada e tornava os livros enfadonhos. Havia poucas exceções à regra – caso da coletânea João Felpudo, best-seller que o psiquiatra alemão Heinrich Hoffmann redigiu em 1844 para o filho. As dez narrativas curtas, rimadas e ilustradas ainda estão no mercado e têm um claro viés moralizante por demonstrar o quanto garotos desrespeitosos, esnobes ou travessos podem quebrar a cara. Conforme anunciou o Jornal do Commercio em dezembro de 1860, a edição que a Laemmert acabava de lançar se distinguia pelo português mais palatável, fruto da tradução de um desembargador brasileiro, Henrique Velloso de Oliveira.
A partir de 1880, o panorama mudou. Na época, a tipografia se encontrava em franca expansão. Novas técnicas de impressão reduziam os custos de produção e barateavam os livros. Os ideais republicanos avançavam, as populações urbanas cresciam, e a escola ganhava força como instituição encarregada de transmitir conhecimentos e valores às futuras gerações. Sob a ótica dos editores, o cenário em ebulição convertia os leitores mirins numa oportunidade lucrativa de negócio, ainda que o índice nacional de analfabetismo continuasse altíssimo. Ultrapassava os 85%, segundo o censo de 1890.
A Laemmert encomendou, assim, uma adaptação de As mil e uma noites para o militar, jornalista e professor Carl Jansen. Ele nasceu em Colônia, na Alemanha, e lutou como mercenário durante um dos conflitos que sacudiram o Cone Sul da América: a Guerra do Prata (1851-52). Quando deixou o campo de batalha, decidiu não voltar à terra natal. Casou-se em Porto Alegre e, mais tarde, trocou a capital gaúcha pelo Rio, onde ensinou alemão no prestigioso Colégio Pedro II. Por dominar o português, aceitou pinçar alguns contos do clássico oriental e traduzi-los para os jovens brasileiros. Ninguém menos que Machado de Assis prefaciou a antologia, publicada em 1882. De acordo com os editores, Jansen extraiu das histórias os trechos que julgou imorais (“as escabrosidades”). Também resumiu as tramas, abdicou de frases na ordem indireta, fugiu de palavras complicadas e substituiu a primeira pessoa do narrador pela terceira.
O êxito do lançamento possibilitou que o professor vertesse e adaptasse para a garotada outros quatro clássicos da literatura adulta, agora europeus: Robinson CrusoéDom Quixote de la ManchaAs viagens de Gulliver e Aventuras do Barão de Münchhausen. Como ocorreu com As mil e uma noites, três dos livros continham prefácio de escritores famosos – Silvio Romero, Ferreira de Araújo e Rui Barbosa. A estratégia buscava legitimar os títulos diante dos pais que os comprariam. Na apresentação de Robinson Crusoé, o sergipano Romero lamentou que, quando pequeno, se alfabetizou “em velhos autos, velhas sentenças fornecidas pelos cartórios dos escrivães forenses”. Os estudantes careciam, afinal, de leituras mais apropriadas à idade deles. O prefaciador comparou aqueles documentos maçantes com “clavas” que lhe esmagavam “o senso estético”, embruteciam “o raciocínio” e estragavam “o caráter”.
No rastro da Laemmert, o fluminense Pedro da Silva Quaresma – que enveredou pelo mercado livreiro em 1879 – publicou uma coleção infantojuvenil de enorme sucesso. Os oito volumes tinham preço acessível, quase nenhum apuro estilístico e uma linguagem que reproduzia a das ruas cariocas. O editor se valeu desses recursos para atrair um público que a concorrência mal atingia: as famílias de baixa renda. O volume inaugural, Contos da carochinha, apareceu em abril de 1894. Com 5 mil exemplares, a primeira edição se esgotou num piscar de olhos. Entre os títulos seguintes, lançados em 1896, havia coletâneas de prosa (Histórias da avozinhaHistórias da baratinha Histórias do arco da velha), de peças (Teatrinho infantil), de poemas (Álbum das crianças) e de brincadeiras tradicionais (Os meus brinquedos). O castigo de um anjo, adaptação de um conto do russo Liev Tolstói (Do que vivem os homens), completava a série.
O jornalista Alberto Figueiredo Pimentel escolheu e retrabalhou boa parte dos textos. As coletâneas de prosa reuniam narrativas populares da Europa e causos do folclore nacional. Além de entreter, as obras estimulavam sentimentos e práticas edificantes: o respeito pelos familiares, a caridade e a rotina de exercícios físicos. Ironicamente, Figueiredo Pimentel escrevia romances naturalistas, como O aborto e Suicida!, que os críticos tachavam de pornográficos.
Nas décadas finais do século XIX e nas duas primeiras do XX, as crianças e os moços também dispunham de ficções criadas por brasileiros. Os cariocas Olavo Bilac e Júlia Lopes de Almeida, o mineiro Afonso Celso, o sergipano Manuel Bomfim e o maranhense Coelho Neto engrossavam a turma dos raros escritores que se dedicavam àquele público. Eles usavam a literatura não apenas para louvar os estudos, o trabalho, a honestidade e a disciplina, mas sobretudo para enaltecer as belezas naturais do país e o patriotismo. Estetas de carteirinha, reverenciavam as normas cultas da gramática e, sempre que possível, exaltavam as singularidades do português. Em 1907, num conto do livro Histórias de nossa terra, Júlia Lopes de Almeida decretou: “Nenhuma outra língua há de tão nobre estrutura! De sonoridades variadíssimas, opulenta nos seus vocábulos, maleável como a cera ou dura como o diamante, a língua portuguesa é a mais bela expressão da inteligência humana. Defendei-a!”
Na terceira década do século passado, Monteiro Lobato entrou em cena e revolucionou o mercado editorial destinado à criançada. De 1920 a 1947, o paulista de Taubaté – que já escrevia para adultos – concebeu todos os enredos da bem-sucedida coleção Sítio do Picapau Amarelo. Irreverentes e engenhosos, os 22 títulos da série inovaram por tratar os pequenos sem paternalismo excessivo e representá-los de maneira pouco estereotipada. Até então, nas ficções brasileiras, meninos e meninas agiam como seres puros e virtuosos ou negligentes, levados e cruéis. Lobato preferiu deixá-los mais complexos.
Ora sagazes, ora ingênuos, os protagonistas mirins do Sítio – Pedrinho e Narizinho – questionam, aprendem e ensinam. Conversam com qualquer um em pé de igualdade e não são meros receptores de preceitos morais. As tramas normalmente se desenvolvem no interior de um Brasil ainda bastante agrário. Ali não existe grande diferença entre o real e o fantástico. Humanos convivem em harmonia com um rinoceronte, um burro e um porco falantes, uma espiga de milho pertencente à nobreza (o Visconde de Sabugosa) e uma boneca de pano rebelde (a tagarela Emília). A personagem contesta, inclusive, as decisões do próprio autor e introduz a metalinguagem na literatura infantojuvenil do país.
Escritas em português informal, muito próximo da oralidade, as histórias agregam elementos que não costumavam se misturar, como a mitologia greco-romana, as fábulas europeias, as lendas indígenas, os saberes caipiras, o cinema americano e os quadrinhos. Também propõem discussões sobre ciência, ética, filosofia, economia e política, mas sem abusarem do tom professoral. Hoje, Lobato enfrenta uma avalanche de ressalvas em razão do apreço que nutria por teorias eugenistas e racistas. Mesmo assim, é impossível negar o pioneirismo e a inventividade de seus livros.
O triunfo do Sítio, aliado à maior escolarização dos brasileiros e à consolidação das classes médias urbanas, fortaleceu a literatura infantojuvenil e fez brotar uma nova leva de autores na década de 1930. Parte deles compunha a segunda geração do modernismo. Enquanto seguiam os princípios de ruptura linguística e temática na prosa adulta, figuras como Graciliano Ramos, José Lins do Rego e Érico Veríssimo se aventuravam em ficções para a garotada. Os dois primeiros exploraram o filão apenas pontualmente. Já Verissimo assinou doze títulos do gênero e recebeu aplausos tanto dos leitores quanto da crítica. Escritores que não participaram do movimento modernista também prosperaram naquela ocasião. O cronista e dramaturgo Viriato Corrêa, por exemplo, publicava obras de teor cívico-patriótico para os jovens desde o começo do século XX. Desfrutava de certa reputação, mas só se consagrou em 1938 com o romance de formação Cazuza. A narrativa confessional, de inspiração autobiográfica, une o regionalismo à nostalgia sem arriscar experimentações. Transformou-se em best-seller e frequentou colégios do país inteiro durante cinquenta anos.
Entre as décadas de 1940 e 1960, a ficção para crianças e adolescentes atravessou uma fase ambígua, conforme o livro Literatura infantil brasileira – História & histórias, das ensaístas e professoras Marisa Lajolo e Regina Zilberman. Por um lado, autores e editoras aproveitaram o crescimento do mercado e se especializaram no nicho, o que elevou a quantidade de lançamentos. Por outro, quase nada digno de nota surgiu em termos de estilo e conteúdo. Os escritores, menos preocupados com questões artísticas e mais com as demandas da indústria cultural, sucumbiram às fórmulas gastas e não honraram o legado inquieto de Lobato. Os assuntos se repetiam, a linguagem não ousava, o maniqueísmo dava as cartas e o tom doutrinário imperava. As tramas ignoravam o avanço da urbanização e deslocavam as ações para o campo ou a selva. Os enredos teimavam em retratar os pequenos como criaturas desprotegidas que exigem tutela e amparo constantes. Projetava-se na infância e na adolescência uma imagem que ratificava as expectativas dos adultos e rebaixava a meninada “à condição pueril e à indigência afetiva e intelectual”, de acordo com Lajolo e Zilberman. Três autores marcaram o período: Maria José Dupré, Francisco Marins e Lúcia Machado de Almeida.
Na segunda metade dos anos 1960, a literatura infantojuvenil recuperou gradativamente o ímpeto transgressor. A tendência se prolongou durante as décadas de 1970 e 1980, que equivalem à “era dourada” do gênero. Ruth e a Recreio contribuíram para o fenômeno. Com a expansão da tevê, a juventude da época lia cada vez menos. O Instituto Nacional do Livro, órgão já extinto, tentou combater o problema e coeditou um número expressivo de títulos que buscavam seduzir a população escolar. Fundações privadas trilharam o mesmo caminho e implantaram programas de incentivo à leitura.

Vários especialistas colocam Ruth Rocha entre os principais representantes da “era dourada”. Junto da autora, se encontram Lygia Bojunga Nunes, Ana Maria Machado, Bartolomeu Campos de Queirós, Pedro Bandeira, João Carlos Marinho e Ziraldo. Os sete assimilaram as lições de Monteiro Lobato sem nunca abrirem mão de um estilo próprio. No caso das ficções de Ruth, os aspectos que mais as caracterizam são:

  • A escritora brinca com o idioma. Repete palavras de modo divertido e cria rimas inesperadas em meio à prosa. “Como diria o Conselheiro Furtado, quero deixar consignado que está tudo errado…”, protesta o Senhor Caracol num trecho de A primavera da lagarta. Às vezes, Ruth literaliza expressões de origem metafórica para causar efeitos cômicos. “Professora, céu da boca tem estrelas? Barriga da perna tem umbigo? Pé de alface tem calos?”, indaga uma personagem de Teresinha e Gabriela. Já em Marcelo, marmelo, martelo, a autora questiona o sentido e a etimologia de vocábulos corriqueiros. O protagonista rejeita os nomes das coisas, que lhe parecem tremendamente inadequados. Decide, então, rebatizar o mundo. Travesseiro e cachorro se tornam cabeceiro e latildo. Colher vira mexedor, e casa, moradeira.
  • A ironia sutil ou a piada rasgada sempre eclode nos livros da escritora, incluindo os que abordam situações amargas. “Menina, como você se chama?”, alguém pergunta em Teresinha e Gabriela. “Eu não me chamo, não, os outros é que me chamam”, responde a garota.
  • Ruth instiga a imaginação dos leitores e os convida a interferir nos enredos (“Vou parar por aqui a história que estou contando. O que se seguiu depois, cada um vá inventando”).
  • A autora resgata ditados populares – “sua alma, sua palma”, “cala boca já morreu” – para manter viva a tradição oral, mas também para lhe conferir novos significados.
  • Os cenários rurais perdem relevância nas tramas, que frequentemente se passam em cidades médias ou grandes.
  • Os livros expõem e discutem mazelas contemporâneas. A relação é longa: machismo, preconceito racial, avanço tecnológico desenfreado, consumismo, desigualdade social, individualismo excessivo, desrespeito à natureza…
  • As narrativas valorizam as mulheres e minorias. Injetam nelas o bom senso e o vigor necessários para a solução de problemas coletivos.
  • As crianças retratadas pela escritora têm voz ativa. Pensam, opinam, escolhem e contestam. “Se você dobra a criança, vai gerar um adulto passivo”, adverte Ruth.
  • A autora considera que o aprendizado resulta da convivência. Seus personagens se transformam porque interagem entre si. A sociabilidade os ensina mais que lições de moral ou discursos pedagógicos.

A escritora se notabilizou, ainda, por histórias que satirizam a figura do monarca. Nos contos de fadas, os soberanos geralmente se mostram éticos, sensatos e generosos, atributos bem distantes das altezas que protagonizam quatro elogiadas obras de Ruth: O reizinho mandão (1978), O rei que não sabia de nada (1980), O que os olhos não veem (1981) e Sapo vira rei vira sapo ou “A volta do reizinho mandão” (1982). As tramas constituem a “tetralogia real” da autora, em que os governantes são truculentos, arbitrários, incompetentes e mimados. Um deles não só determina a prisão de todas as verdades como proíbe os cidadãos de adotarem o nome Arthur. Outro briga com qualquer um que arrisque criticá-lo. Para não levar mais broncas, o povo se cala por tanto tempo que perde a capacidade de falar. Há também o monarca relapso que é ludibriado pelos ministros preguiçosos e o que manifesta um estranho distúrbio óptico. Ele consegue enxergar os súditos grandalhões, mas não os pequeninos. Nos quatro livros, os reis acabam vencidos ou modificados graças à união dos plebeus. A população dos reinos encabeça revoluções que derivam de estratégias inteligentes. O soberano enxerga apenas os grandalhões? Os pequeninos tratam de subir em pernas de pau e se fazem avistar. O monarca ordena que prendam todas as verdades? Os súditos insistem em alardeá-las para que a prisão encha e desmorone de tão superlotada.
Ruth publicou a “tetralogia real” no período da ditadura militar. Os livros, portanto, soam como alegorias do autoritarismo que oprimia os brasileiros e reiteram o apoio da autora à democracia. Em 1989, pouco depois da redemocratização, a escritora lançou nova trama provocativa: Uma história de rabos presos. O enredo se desenrola num lugarejo bem remoto, a Egolândia, onde os ricos e os políticos comungam de interesses escusos. O prefeito favorece o coronel, que favorece o vereador, que favorece o secretário, que… Os corruptos trazem sempre a palavra “eu” no nome: Egomeu, Euclides, Eulália, Euler, Eurico, Filisteu, Irineu, Neuza, Romeu e Tadeu. Um dia, nascem caudas em todos os que promovem o “toma lá dá cá”. São tantos os rabos emaranhados que, durante a campanha eleitoral, fica impossível desatá-los.
Em março passado, numa reportagem do site PublishNews, Ruth mencionou a influência que sofreu (e ainda sofre) de Lobato. “Continuo a maior fã dele”, ressaltou logo antes de informar que não presenteia mais ninguém com os títulos do Sítio. Decidiu vetá-los depois de dar seu livro infantil favorito, Reinações de Narizinho, para uma garota negra. “A menina voltou e disse: ‘Não gostei. Tem coisas muito feias ali. Tem negro beiçudo, tem não sei o quê.’”

Apesar do transtorno visual e da artrose nas mãos, a autora frisa que goza de “bastante saúde”. “Andei perdendo um pouco da audição e agora preciso de bengala. Nada grave, né? Completei 94 anos e me sinto como se estivesse com 93”, zomba. “Faço parte de uma família longeva. Meu pai alcançou os 91 anos. Minha mãe atingiu os 96, e minha avó, os 98.” Um quarteto de assistentes – “a Dalva, a Maria Rita, a Damares e a Maria Emília” – se reveza para cuidar da escritora, que mora sozinha num apartamento espaçoso. “São moças ótimas! Minhas amigonas.” Ruth conta que recebe visitas regulares dos dois netos e da filha. “Todos me tratam direitinho. Não posso reclamar.”
À semelhança da irmã, Rilda também se considera muito saudável. “Botei um marcapasso há um tempão e mal me recordo dele. Uso óculos, lógico, além de aparelho nos ouvidos por causa de uma surdez precoce. A cabeça permanece funcionando. Não tenho dores na coluna ou nos joelhos nem insônia. Se acordo de madrugada, pego o tablet, checo as notícias do Estadão e durmo outra vez.” Ela vive num sobrado com a filha do meio e uma vira-lata caramelo, a Havana. Preserva o hábito de costurar, jogar sudoku (“nível médio ou médio plus”) e acompanhar telejornais. “Admiro o William Waack, da CNN.”
Ruth já se dedicou à costura, mas largou as agulhas “séculos atrás”. Deixou igualmente de cozinhar. “Eu preparava uns pratos de sucesso: macarrão à primavera, coq au vin e pudim de leite.” Hoje conserva mesmo é o gosto por comer e beber. “Adoro sorvete e café.” A autora segue o noticiário sobretudo pela GloboNews e, desde 2023, não escreve com a frequência de antes. “Me faltam ideias, sabe? Espero que, uma hora, surja um bom lampejo.” Entre a escrita e a leitura, prefere a segunda. “Não existe nada melhor do que ler. A leitura aumenta a nossa percepção do mundo, o nosso vocabulário, a nossa alegria. Ler aumenta a vida.”
No quarto de onde Rilda liga para a irmã, veem-se três porta-retratos. Um exibe as duas, ainda crianças, com fantasias de Carnaval. Outro mostra as meninas no Parque Trianon, em São Paulo, perto de uma empregada doméstica. Ruth parece emburrada. “O vestido dela estava pinicando”, justifica a mais velha. Na terceira foto, a dupla já chegou à adolescência.
Para selecionar os livros que apreciam juntas, as irmãs se baseiam em indicações de parentes, da mídia ou de amigos. Rilda apoia o volume escolhido numa mesa robusta que herdou dos pais. Com a mão esquerda, segura o telefone. Com a direita, coloca uma régua sob a linha que vai ler. Ruth a escuta numa cadeira de balanço, próxima à luminária da sala. “Minha leitura não é tão profissional quanto a dos audiobooks. Leio devagar e sem bancar a atriz. Não interpreto os personagens, compreende? Priorizo o tom natural. Busco caprichar na dicção, mas acabo tropeçando aqui ou ali: ‘Desculpe, me atrapalhei. Vou recomeçar.’ Como nenhuma de nós prestará vestibular amanhã, não precisamos devorar os livros da noite para o dia. Podemos ir no nosso ritmo”, diz Rilda. “Ela lê perfeitamente”, elogia Ruth. “Tem um jeito expressivo e uma voz bem mais nítida que a dos audiobooks.”
Durante as leituras, as duas comentam trechos que as intrigam ou emocionam. Às vezes, dispersam e abordam outros assuntos. Logo, porém, retomam o fio da meada. “Somos muito conversadeiras…”, admite Rilda. “Falamos de tudo: do passado, do presente, das filhas, dos netos, dos sobrinhos, do país.” Quando não gostam de um livro, o abandonam antes do fim sem qualquer hesitação.
No rol dos 65 títulos que terminaram, não há só novidades. “Relemos umas coisinhas também, obras espetaculares de que a gente não se lembrava mais”, afirma Ruth. A lista reúne apenas prosa e é de um ecletismo fascinante. Alguns exemplos do que a dupla já compartilhou, por categoria:

  • Ficção brasileira – A muralha (Dinah Silveira de Queiroz); Bambino a Roma (Chico Buarque); Grande sertão: veredas (Guimarães Rosa); Sargento Getúlio (João Ubaldo Ribeiro); Solução de dois Estados (Michel Laub).
  • Ficção estrangeira – A metamorfose (Franz Kafka); Memorial do convento (José Saramago); Número zero (Umberto Eco); Nunca (Ken Follett); O avesso da vida (Philip Roth); O mesmo mar (Amós Oz); Submissão (Michel Houellebecq).
  • Biografia – A imperatriz de ferro: a concubina que criou a China moderna (Jung Chang).
  • Memórias – Uma terra prometida (Barack Obama).
  • Divulgação científica – Por que sonhamos (Dr. Rahul Jandial); Revolução das plantas (Stefano Mancuso); Sapiens (Yuval Noah Harari); Sete breves lições de física (Carlo Rovelli).
  • Antropologia – Encontros (Eduardo Viveiros de Castro).
  • História – Copacabana: a trajetória do samba-canção (Zuza Homem de Mello); Escravidão – Volume 1 (Laurentino Gomes).
  • Reportagem – Trágica e bela: uma viagem pelas 1001 faces da Pérsia e do Irã (Lúcia Araújo).
  • Sociologia – A dominação masculina (Pierre Bourdieu).

Um dos netos de Ruth, Pedro Rocha Colzani, também empresta os olhos à escritora, só que presencialmente. Duas vezes por semana, o rapaz lê durante uma hora para a avó. “Começamos as leituras uns três anos atrás e, até agora, concluímos dezoito livros. Cinco deles são do Ítalo Calvino, romancista que admiramos demais”, diz Pedro.

“Um monumento à amizade.” Alexandre Machado, o caçula dos irmãos, define assim as reuniões telefônicas de Rilda e Ruth. “A iniciativa de ambas me comove. Há tanto amor, tanta solidariedade, tanto carinho envolvidos… Elas selaram um compromisso diário e o respeitam desde 2020! Quantas pessoas honrariam um pacto do tipo? E justo num momento em que existe uma guerra aberta contra o hábito de ler.”
Condenado à morte por desvirtuar a juventude ateniense, Sócrates aguardava a execução quando avistou uma flauta de prata em cima de um banco. O filósofo resolveu apanhar o instrumento e explorá-lo. Um discípulo que lhe fazia companhia perguntou: “Eis que o carrasco já prepara o teu veneno. Vais desaparecer em breve e ficas tocando uma flauta? Por quê?” Sócrates respondeu: “Porque quero aprender uma ária.” Ruth diz que, como o filósofo, procura manter a curiosidade acesa. “Sempre acho que posso aprender mais uma ária.” Rilda assina embaixo. “Costumo brincar com a Ruth: ‘Veja lá, hein? Trate de não morrer. Nós ainda temos muitos livros para conhecer.’”
(revista piauí)

sexta-feira, 1 de agosto de 2025

O cria que virou playboy

Como a ascensão social de Maxwell Alexandre mudou seu modo de pintar

Picasso, mané? Não é tão brabo quanto dizem. Consigo pintar de boa uns quadros como os do maluco. Velázquez, Botticelli, Van Gogh? Molezinha. Posso reproduzir os bagulhos dos caras também. Eu pensava mais ou menos desse jeito até pouco tempo. Imaginava à vera que daria conta de imitar os fodões da pintura, tá ligado? Não enxergava tantas qualidades na maioria da velha guarda que ocupa o panteão da arte. Considerava os sujeitos ruins, chatos, um negócio sem graça mesmo. Visitava museus famosos da Europa, tipo o Louvre, e passava rapidinho por aquela massa de obras antigas. Mano, que preguiça! Eu não prestava atenção em quase nada. As pinturas simplesmente não me emocionavam – sobretudo as realistas, que lembravam bolos de noiva em casamento de grã-fino. Sabe quando o bolo é tão perfeitinho que se torna cafona? Nem as feras vanguardistas, responsáveis por subverter o realismo a partir do século XIX, me animavam muito.
Para mim, todos os elementos que costumam mobilizar os pintores – a cor, a luz, a textura, a forma e o caralho – soavam como papo de playboy. Coisa de quem tem a vida ganha e o privilégio de se preocupar com detalhes. Uma parada distante da minha realidade. Preto, carioca e flamenguista de coração, nasci e me criei na favela da Rocinha. Sentia falta de mestres negros entre os medalhões que servem de farol para a pintura do Ocidente. Não satisfeito em desprezar a tradição, me julgava capaz de fazer o que os bambambãs fizeram.
Era uma indiferença soberba, tá ligado? Não se tratava de ignorância. Estudei sociologia da arte, história da arte e filosofia da arte quando cursei design na puc do Rio de Janeiro. Conhecia bem os códigos do universo artístico. Minha postura marrenta diante do cânone resultava mais de um espírito bastante competitivo e provocador, alguma ingenuidade, muito recalque e certa resistência para aceitar meus limites. Me recordo de colegas que, mesmo jovens, reverenciavam a pintura a óleo como se cultuassem uma santa. Eles pareciam beatos de novela. Acreditavam que é preciso ficar de joelhos antes de pintar e se entregavam fervorosamente àquele ritual de preparar a tela, iluminar a cena, combinar pigmentos e gerar uma paleta original de cores. Eu nunca me comportava assim. Caso não arranjasse telas, usava outros suportes. Se não descolava tinta a óleo, dava meus pulos com materiais alternativos: caneta esferográfica, graxa de sapato, carvão, betume… Caso quisesse um vermelho, aproveitava o que encontrava pela frente em vez de buscar o vermelho mais foda de toda a galáxia.
Não à toa, evitava me chamar de pintor, embora pinte desde que iniciei a carreira, há quase dez anos. Preferia definir meus trabalhos como anotações, taquigrafias. De que modo tu, um repórter, toma nota? Escrevendo, não é? Eu anotava por meio da pintura. Na hora de pintar, não apenas cagava para cor, luz, textura e forma. Também dispensava objetos de referência e modelos vivos. Pintava tudo de memória ou baseado na imaginação. Pá pum! Era um lance mais ligeiro, irreverente e descontraído.
Mas, de 2023 para cá, sinto que minha cabeça está mudando. Baixei as armas e compreendo cada vez melhor os “gênios dos pincéis”, o que acabou por alterar a maneira como pinto. Agora já não tenho pudores de admirar Cézanne ou Monet e me dizer pintor. Acho que minha percepção se transformou principalmente depois que vi as Pinturas negras, do espanhol Francisco de Goya, no Museu do Prado, em Madri. São catorze quadros sinistros! As obras fogem do realismo e exibem umas figuras esquisitas – ora fantasmagóricas, ora caricatas ou depressivas. Um troço impactante, que me remete à arte contemporânea. Goya produziu a série entre 1819 e 1823, com a técnica óleo a seco, nas paredes da casa onde morava, a Quinta del Sordo. Mais tarde, um restaurador tirou as imagens de lá e transferiu para as telas que o Museu do Prado se encarrega de preservar e expor.
Meses depois da viagem à Espanha, minha mulher, Raíssa Freire, engravidou de uma menina. Cogitamos batizar a criança de Sofia, mas desistimos. “Vamos procurar um nome menos comum. Que tal Magnólia?”, propôs Raíssa. Não… “E Pedra?”, sugeri. Também não… Um dia, me ocorreu chamar a bebê de Goia, justamente por causa do pintor. Só que, no lugar do y, pensei em botar um i. Raíssa não se empolgou. Decidimos, então, fazer uma brincadeira. Coloquei a mão no ventre de Raíssa e falei: “Tu vai escolher o teu nome, filha.” Apresentei as várias possibilidades – Sofia, Magnólia, Pedra – e nada. Assim que mencionei Goia, a garota meteu um chutão na barriga de Raíssa. Pronto! Ficou Goia. Ela é nossa primeira filha e comemorou 1 aninho em junho.

Por que o modo como encaro a pintura se modificou tanto? O que estava rolando comigo quando visitei Madri e me liguei na grandeza do Goya? Para responder às perguntas, tenho que contar mais da minha história. Eu nunca quis bater ponto, mané. Já na infância, rejeitava a ideia de levar uma vida banal. Não sonhava em arrumar um bom emprego, usar gravata, financiar apartamento e nananã. Questionava tudo: a desigualdade social, a truculência da polícia, a via-crúcis dos negros. Observava a rotina árdua da minha mãe, uma carioca com antepassados mineiros, e me entristecia. A coitada trabalhava de empregada doméstica para as madames da Zona Sul enquanto cuidava de três filhos. Hoje vive relativamente tranquila em Cachoeiras de Macacu, na Região Metropolitana do Rio. O corre do meu pai também não me encantava. Pernambucano, o velho trampava como pintor automotivo na Rocinha. Depois, arranjou outra família e se mudou para São Paulo, onde abriu uma funilaria. Morreu de câncer em 2016.
Meu cotidiano se parecia com o de trocentos moleques da favela. Eu frequentava cultos da igreja evangélica, estudava em colégio público, jogava muito videogame e passava horas diante da tevê. Era fã de animes, os desenhos animados japoneses. Para faturar uma grana, pegava o lixo de estabelecimentos comerciais e descartava nas lixeiras da Rocinha ou tomava conta de carros em volta do shopping Fashion Mall, vizinho à comunidade. Levava, portanto, a vida banal que desejava evitar.
Sorte que minha imaginação voava longe e me convertia num super-herói, num guerreiro sempre à caça de aventuras. Eu criava os meus próprios desafios, tá ligado? Vou pular mais alto que toda a galera da rua, vou ganhar de geral na corrida, vou trocar soco com sei lá quem. Por isso, levantava bem cedo e malhava sem dó. Não tinha papo de judô, caratê ou jiu-jítsu. Ninguém me matriculou nessas porras, não. Eu treinava sozinho. Até que consegui entrar na capoeira e aprendi golpes alucinantes. Girava rapidão, saltava como gato e distribuía pernadas de responsa. Um tempinho depois, à beira dos 14 anos, virei patinador por influência do Shadow. Conhece o Shadow, né? O personagem do videogame Sonic. Ele é um ouriço preto e vermelho que se locomove com patins-­foguetes. Bicho doido dos infernos! Na patinação, logo me interessei pelo street, modalidade em que os atletas realizam um punhado de manobras radicais. Praticar esporte se tornou uma válvula de escape, sacou? O jeito que encontrei de driblar um pouco o banal.
Eu também gostava de desenhar. Não podia ver lápis e papel que já saía rabiscando. “Tu ganhou um presente de Deus: a mão boa para o desenho”, elogiava minha mãe. A Turma da Mônica me fascinava tanto que resolvi bancar o Mauricio de Sousa e inventei a Turma do Pedrinho. Meus colegas de escola se amarravam na parada. Eu fazia HQs com a Turma do Pedrinho e vendia durante o recreio. Mó sucesso! Desenhar se transformou em outra válvula de escape, além de me garantir uns trocos.

Assim que completei 18 anos, precisei servir nas Forças Armadas. Os milicos me enviaram para o Forte de Copacabana, onde ralei por dez meses. Ali funciona o Museu Histórico do Exército, tá ligado? Chuta qual atribuição recebi dos comandantes. Zelar pela reserva técnica do museu! Ou melhor: catalogar, higienizar e transladar os bagulhos. Eram os verbos que os oficiais costumavam empregar quando me ordenavam algo. Em vez de falarem “limpe aquele quadro” ou “mude aquela espada de lugar”, diziam “higienize o quadro” e “translade a espada”. Comédia demais… Pajear o acervo acabou se revelando uma experiência importante. Foi meu primeiro contato com o rolê museológico.
Na adolescência, por incrível que pareça, considerei a possibilidade de seguir carreira militar. Eu desconfiava da polícia, mas curtia o Exército. Queria guerrear, defender a nação, aterrorizar os inimigos. Um troço bem masculino, bem macho alfa, que casava com minha ânsia de afugentar o banal. No Forte de Copacabana, porém, a realidade se impôs e atropelou a fantasia. A lida de recruta não tinha nada de aventuresca. Nem tiro me deixavam dar, mané. Se não me engano, disparei apenas três, de calibre 12. Lógico que abandonei depressinha a hipótese de, um dia, vestir casaco de general.
Frustrações à parte, ainda hoje aprecio certos valores do Exército. O lance da disciplina, por exemplo. No quartel, tu acorda às cinco da manhã, faz a barba, mete o uniforme e já vai para o pátio. O comandante inspeciona a tropa com lupa. Se tu não estiver impecável, toma esculacho. Se tu vacilar numa atividade em grupo, todo mundo paga vinte flexões de braço gritando teu nome: “Obrigado, Maxwell!” Confesso que tamanho rigor me agradava. Na favela, a gente cresce muito solto, muito sem hierarquia. A desordem impera: menorzinho em boca de fumo, som alto madrugada afora, moto zunindo pelas vielas. Beleza, é a cultura da quebrada e há uma porção de coisas maneiras que derivam de tanta anarquia. Pena que também haja um monte de coisas horríveis… O Exército põe os recos nos trilhos, sacou? Conheço uma porrada de jovem zoado que lucraria bastante se passasse uma temporada dentro de um quartel. O que estou dizendo talvez soe bizarro para um playboy de esquerda. Mas o fato é que só me tornei um sujeito disciplinado por causa do esporte, da religião e do Exército, os três pilares em que me apoiei quando moleque.

Na minha época de colégio público, não conseguia entender a brisa dos alunos que mal terminavam o ensino médio e já prestavam vestibular. Cursar faculdade para quê? Nenhum dos meus vizinhos ou familiares cursou. Eu não botava fé naquele blá-­blá-blá de que diploma superior tira o pobre da merda. Foi um amigo que me abriu os olhos: “Não viaja, mano! Faculdade pode valer a pena, sim!” O cara, branco, estudava marketing na PUC e estava tranquilão. Eu, em contrapartida, me sentia à deriva. Embora tivesse desencanado da carreira militar, ainda servia no Forte de Copacabana. Para onde iria depois que me livrasse do quartel? “Faculdade, rapá! É o jeito. Tu devia tentar uma baratinha”, teimava o meu amigo. Ele buzinou tanto na minha orelha que me convenceu. “Demorô! Vou encarar a bucha, mas nada de faculdade barata, paizão! Quero entrar na PUC, como tu. Impossível?”
Meu amigo explicou que a PUC oferecia bolsas para estudantes de baixa renda. “Só que o vestibular de lá é pedreira”, avisou. Mesmo assim, não me acovardei e, quando zarpei do Exército, procurei um cursinho social que rolava numa favela do Leblon, a Cruzada São Sebastião. Por gostar de desenhar, resolvi fazer design. Eu continuava patinando e me destacava nas competições de street. Venci diversas, inclusive. Virei uma referência naquele universo, tá ligado? Apareci em capa de jornal e programas de televisão, tipo Encontro com Fátima Bernardes. O problema é que a bagaça não rendia um puto. Faltavam premiações em dinheiro e mais patrocinadores. Me bateu, então, o desejo de fortalecer o street no Brasil – de agitar a cena para deixá-la tão pujante quanto a do skate. Eu pretendia, entre outras paradas, organizar novos campeonatos, criar marcas de patins ou roupas esportivas e divulgar toda a cultura que gira em torno da modalidade. O design certamente me ajudaria nessa tarefa.
O cursinho social custava merreca. Uns 30 contos por mês. Como ninguém aliviava o meu lado, tratei de correr atrás do capital. Fui trampar com van nos fins de semana. Acordava às três da madruga e voava para o ponto. Minha função principal? Recolher a grana das passagens durante os trajetos. Eu também precisava berrar o itinerário na porta da van: “Copacabana – Leme!” Às vezes, o motorista ficava boladão e me pressionava: “Grita mais alto, pô! Vamos lotar a porra da van!” Outro bagulho que me atazanava, mané: o troco. Caraca! Que perrengue! Eu tinha que arrasar na matemática para não confundir o troco da rapaziada.
Em 2011, com 20 anos, finalmente marquei o gol. Depois de enfrentar o temido vestibular, ingressei na PUC, mas não descolei bolsa logo de cara. Passei o primeiro semestre agoniado. Não paguei nenhum boleto e fiquei devendo mais de 12 mil reais para a faculdade. No segundo semestre, o sufoco diminuiu à vera. Recebi bolsa de 100%, e a PUC zerou minha dívida. De quebra, me concedeu vale-transporte e o direito de comer no bandejão sem desembolsar um centavo. Show de bola! Meu pai ainda me arrumou um mac usado. Computador bonzão! Um modelo foda de designer.
Lembro que eu costumava levar marmita à faculdade antes de poder frequentar o bandejão de graça. Minha mãe preparava sempre a mesma comida: arroz, Miojo e tomate. De vez em quando, acrescentava um ovo, uma salsicha ou meia carne de hambúrguer. Eu morria de vergonha, filho! Receava que as gatinhas me flagrassem com um rango tão simplório. Por isso, preferia almoçar no bosque do campus, sozinho e longe da galera.

Embora me faltasse dinheiro, evitei trabalhar enquanto cursava a PUC. A maioria da playboyzada se dedicava integralmente à escola, correto? Então o cria da Rocinha iria se dedicar também. Eu sugava o máximo daquilo ali. Procurava não matar aula e fazer todas as atividades extraclasse. Mergulhei nos estudos como um herdeiro, tá ligado? Se bem que muito herdeiro mete o caô e apenas finge estudar…
Só trampei durante o quarto semestre. Arranjei um estágio remunerado numa startup que fabricava cartões para presentes. Os caras me pagavam 1 mil reais por mês. Uma fortuna! A grana nunca acabava. Eu comprava biscoito recheado na hora que sentia vontade, mané! Olha o tamanho do luxo… A ironia é que entrei felizão no estágio e pulei fora mais feliz ainda. De início, aprendi macetes interessantes, mas depois… O serviço me enchia o saco. Foi um alívio quando avisaram que não iam renovar o meu contrato. “Puta que pariu, vou deixar a prisão”, festejei em silêncio.
Pouco antes do estágio, fiz uma disciplina na faculdade com o professor Eduardo Berliner, um pintor maneiraço. Ele me apresentou o bê-a-bá da arte contemporânea. O papo do maluco virou minha cabeça do avesso. Hoje enxergo as aulas do Berliner como um divisor de águas. Daquele momento em diante, larguei gradativamente o plano de me tornar designer e botei cada vez mais lenha na ideia de abraçar a carreira artística.
Não abdiquei do street, mas o meu relacionamento com a modalidade se alterou. O lado competitivo e o potencial econômico do esporte perderam força para mim. Eu agora queria associar a patinação à arte. Não por acaso, minhas primeiras pinturas nasceram de manobras com patins. Já ouviu falar de wallride? É um tipo de manobra em que o patinador desafia a gravidade e desliza sobre paredes. Um dia, tive a sacada de pintar enquanto realizava wallrides. Esparramei tinta látex pelo chão e fixei um pedaço de tela na parede. Depois, coloquei os patins, tomei distância e saí correndo. Passei em cima da tinta e mandei um wallride na parede. Vrum! Pegou a visão? As rodas dos patins funcionaram como pincéis e traçaram riscos aleatórios na tela. Repeti o movimento inúmeras vezes. As manobras geraram, assim, uma pintura abstrata. Usei a técnica para produzir outros trabalhos e batizei a série de Wallride paintings.
Tudo rolou dentro de um edifício inacabado que ocupei com três colegas da PUC. Eles também estavam se afastando do design e tateando os códigos da arte contemporânea. Erguido entre as décadas de 1960 e 1970, o prédio fica em São Conrado, o mesmo bairro da Rocinha. Iria abrigar um hotel cinco estrelas, só que os empreiteiros vazaram antes de terminar a construção. Restou um elefante branco de dezesseis andares, que o povo apelidou de Esqueleto da Gávea. Lá montamos um ateliê, à semelhança de outros jovens. Imagine um lugar gigantesco, detonado e quase vazio. No Esqueleto, tínhamos liberdade e espaço para fazer experimentações ousadas. A gente adorava.
Durante a faculdade, além de investir nas Wallride paintings, bolei uma intervenção urbana bem obsessiva. Eu admirava o Keith Haring, tá ligado? Aquele artista gráfico dos Estados Unidos que dialogava com a pop art e o grafite. O cara morreu em fevereiro de 1990 e ganhou fama por desenhar uns bonequinhos coloridos e estilizados. São imagens que bombam até hoje. Volta e meia, tu encontra os bonequinhos em pôsteres, adesivos e camisetas. Como o Haring inventou uma linguagem visual de fácil assimilação, entrei na pilha de copiar os personagens e espalhá-los não somente pelas ruas, mas também pelo campus da PUC. Eu os replicava às dezenas nas lousas das classes, no diretório acadêmico e nas colunas dos pilotis. Os estudantes não aguentavam mais trombar com os meus pastiches. Muitos torciam o nariz: “O Max pirou. Só vê graça em plagiar o Haring.” Eu não dava a mínima. Gostava de me exprimir daquela maneira simples e direta. Sem contar que os meus personagens não imitavam totalmente os originais – se distinguiam deles por estarem sempre com patins de street. Eu lançava mão de imagens populares para retratar um esporte nada popular, sacou? Misturei mainstream e underground num combo divertido e sagaz.

Em 2016, quando concluí a PUC, me vi perdidão. Caí no maior limbo, mané. Enquanto frequentava o campus, me distanciei bastante da Rocinha. Continuava morando ali, junto da minha mãe e dos meus irmãos, mas passava o dia inteiro na faculdade. Já não me vestia como os jovens do morro nem usava tanto as gírias da quebrada. Fiz amizade com o pessoal do asfalto e circulava por ambientes da burguesia. Em casa, minha mãe ensinava: “Quanto mais conhecimento tu adquirir, mais longe estará de Deus.” Na PUC, os alunos e professores rebatiam: “Evangélico aqui não se cria, porque o nosso Deus é o conhecimento.” Eu precisava negar a favela para conseguir levar os estudos adiante, tá ligado? Acontece que, no finalzinho do curso, a estratégia da negação desandou e parei de me sentir à vontade entre os playboys. Ficou estranho ser o único preto do rolê.
Iniciei, então, um processo que chamei de “repatriação”: voltei de corpo e alma à Rocinha. Logo depois da formatura, me afastei dos amigos burgueses, não busquei emprego e decidi ter novamente uma rotina de favelado. Jogava futebol com os moleques da comunidade, dançava nos bailes funk, adotava o linguajar das ruas sem freios e andava descalço pelos becos. Minha mãe chiava: “Enlouqueceu, menino? Bota um chinelo!” Eu me lembrava de uma passagem bíblica que diz algo como “os loucos não errarão o caminho do Céu” e respondia: “Pode relaxar… Estou só garantindo a minha salvação.”
Na laje de casa, improvisei um ateliezinho e me entreguei completamente à utopia de virar artista. Perdi a conta de quantas horas gastei lá em cima. A galera que estudava moda na PUC confeccionava moldes com algodão cru e papel pardo. Antes de deixar a faculdade, apanhei sobras desses materiais e guardei. O algodão e o papel serviram de suporte para os meus trabalhos na laje, assim como sacolas plásticas, lonas e sacos de areia. Eu fazia abstrações ou autorretratos e desenhava cenas da Rocinha, todas imaginadas a partir de situações que testemunhava: roupas secando no varal, crianças brincando de pique-esconde, adolescentes regressando da escola. Eu também escrevia uma caralhada de reflexões nos suportes. Em vez de tinta, usava giz de cera, lama, carvão, lodo, pó de tijolo e sujeira do chão.
Minha mãe não entendia aquela vibe e me cobrava direto: “Qual é, Max? Chega de vagabundagem! Tu já terminou a faculdade. Cadê o dinheiro, cadê a cesta básica, cadê a ajuda? Vai cursar outra faculdade na laje?” Os manos da vizinhança seguiam a mesma toada e zombavam dos meus trampos: “O cara desenha com lama. Mó doidão!” Uma tarde, vi alguns dos garotos soltando pipas. Eles riam de mim sem desconfiar que também desenhavam de um jeito diferente. O zigue-zague das pipas embaixo do Sol escaldante parecia um desenho tão inusitado e bonito quanto os meus.
Eu rechaçava o mundo da playboyzada, mas estava rodeado de incompreensão na favela. Não tinha para onde correr, sacou? Por isso, me julgava num limbo. Era um desterrado. Nem o morro, nem o asfalto me satisfaziam.
Apesar dos pesares, valorizo demais tudo o que vivenciei na laje. Ali inaugurei quatro procedimentos que iriam marcar a primeira fase do meu trajeto artístico: a produção de autorretratos, o uso do papel pardo, a substituição das tintas convencionais por pigmentos alternativos e o ato de me expressar pictoricamente como quem toma notas.

Depois de uns meses, a chapa esquentou geral em casa. Minha mãe apertou o cerco e duplicou as cobranças: “Arrume logo um emprego, Max!” Injuriado, procurei o presidente da S.B.R. Rocinha Cultural Radical, uma ONG da comunidade que incentiva esportes com skate, bike e patins. “Estou precisando de um espaço para tocar as minhas paradas”, explanei. “Posso montar um ateliê na sede do projeto?” O maluco, que me conhecia do street, deu o sinal verde sem grandes dramas. Resultado: troquei a laje por uma área coberta e um pouco menor.
No novo ateliê, me dediquei sobretudo à pintura. Embora continuasse entusiasta de pigmentos alternativos, também usava tintas serigráficas e vinílicas. O papel pardo se tornou, então, o meu principal suporte. Percebi que gostava muito dele tanto em termos plásticos quanto simbólicos. O material, barato e mundano, se adequava perfeitamente à minha pira de fazer autorretratos. A expressão “pardo”, tu sabe, tem um viés racial, já que designa os mestiços de origem africana ou indígena. Para mim, ecoa mais como uma tentativa de amenizar a negritude e até de ocultá-la. É um eufemismo sinistro, mané. Não à toa, me amarrei na ironia de usar o papel pardo em pinturas que reiteram a identidade negra.
Com o tempo, os gestores do Complexo Esportivo da Rocinha, onde a S.B.R. se localiza, cansaram de mim. Reclamavam que eu usufruía do espaço, mas não oferecia nenhuma contrapartida. Senti que me queriam fora de lá. Na época, a galeria Carpintaria, do Rio, anunciou que iria promover uma exposição diferentona. A mostra coletiva não teria curadoria. Qualquer um poderia participar do bagulho. Os interessados entrariam na galeria por ordem de chegada e instalariam os próprios trabalhos. O acesso seria interrompido quando toda a área disponível estivesse ocupada. Havia, ainda, outra regra: a Carpintaria só aceitaria obras que conseguissem passar pela porta da frente.
Claro que encarei aquilo como uma baita oportunidade. Afinal, não se tratava de uma galeria caída. Os donos da Carpintaria dirigem a prestigiosa Fortes D’Aloia & Gabriel, em São Paulo e Lisboa. De olho na exposição, concebi o painel Tão saudável quanto um carinho. A pintura, meu primeiro trabalho monumental em papel pardo, reflete sobre a relação da Polícia Militar com as crianças e os adolescentes das favelas. Levei uma semana para concluí-la, ainda dentro da S.B.R.
Em 10 de agosto de 2017, cheguei de manhãzinha à Carpintaria. Era o sexto da fila. Enfiei o painel dobrado embaixo do braço e passei de boa pela porta da frente. Assim que abri a bagaça na galeria, os organizadores da mostra ficaram pistolas. Minha obra media 320 cm por 476 cm. Já a porta tinha 180 cm por 210 cm. “Tu não vai expor”, me disseram. “Tua pintura excedeu o tamanho permitido. Está maior do que a porta.” Eu retruquei na lata: “Está maior, mas conseguiu passar. Cumpri a regra! Vou expor, sim.” A treta correu solta até os proprietários da Carpintaria baterem o martelo e autorizarem minha participação.
Foi então que o jogo mudou legal. O painel causou um tremendo auê. Todo mundo se surpreendeu – repórteres, críticos, outros artistas, o público e meus ex-professores da PUC. Uma colecionadora de renome manifestou a intenção de comprar a pintura. “Topa vender?”, me perguntaram os galeristas. “Topo! Por 45 mil reais…”, respondi. Eles explicaram que um principiante não deveria pedir tanto. Beleza. Vendi por 6 mil.
Do dia para a noite, choveu burguês atrás de “um Maxwell Alexandre”. Não desdenhei da maré alta e negociei mais quatro ou cinco trampos. Em poucas semanas, faturei 30 mil reais, mano! Já podia deixar a S.B.R. e a casa da minha mãe. Resolvi morar de aluguel num predinho da Rocinha mesmo. O cafofo que descolei também abrigaria o meu ateliê. Os ventos permaneceram tão favoráveis que acabei alugando o prédio inteiro. Lá dispunha de assistentes, escritório, acervo e uma pequena galeria, em que exibia minhas criações e as de alguns colegas. Tu me desculpe o clichê, mas tive realmente uma ascensão meteórica.
A partir de 2018, expus não apenas no Brasil como na França, na Espanha, na Inglaterra, nos Estados Unidos, na Tailândia e na África do Sul. Fiz residências artísticas em Londres e Marrakech. Abocanhei prêmios significativos e conquistei um mercado considerável. Não bastasse, entrei para as coleções de museus relevantes em São Paulo, Miami, Lyon, Abu Dhabi e no Rio.
Hoje, possuo um ateliê parrudo, que emprega doze profissionais. Fica em São Cristóvão, o bairro da antiga família imperial, bem distante da Rocinha. Eu parei de viver na favela e me transferi para um endereço de bacana, onde divido um apezão de três dormitórios com minha mulher e a Goia. Das janelas, avisto o Pão de Açúcar, o Cristo Redentor e o Morro da Viúva. Uma paisagem estonteante, mané! A cereja do bolo é que concretizei um sonho de infância e virei sócio do Flamengo. Agora pratico natação no clube, em plena Gávea, um dos ninhos da elite carioca.

Quando decidi contratar assistentes, selecionei uns caras que pintavam à maneira tradicional. Eles não misturavam as tintas, por exemplo. Se estavam com o azul no pincel e queriam usar o amarelo, o que faziam? Nada muito complicado. Simplesmente limpavam o pincel até eliminarem todos os vestígios do azul e só então pegavam o amarelo. Eu não costumava trampar assim. Na minha onda de vincular a pintura canônica às veleidades da playboyzada, nem cogitava incorporar cuidados do tipo. Lambuzava o pincel de azul e depois de amarelo sem limpar porra nenhuma.
Mas, à medida que trabalhava com os assistentes, percebia que meu olhar se modificava. Certas técnicas convencionais iam ganhando sentido. O amarelo de fato se tornava mais vibrante caso saísse de um pincel limpo. Foi nesse período que visitei o Museu do Prado e me fascinei pelo Goya. Eu já levava uma vida de playboy, sacou? Apê com vista para o Cristo, pé-direito alto, restaurantes chiques, aeroportos internacionais, piscina de ladrilho… Não tinha por que continuar renegando cor, luz, textura e forma nem esculhambando o Picasso ou o Botticelli. Lentamente, abandonei a pintura taquigráfica, de anotação, e aderi à clássica, menos ansiosa e de observação. Eu havia alcançado a prerrogativa de bancar o artista europeu do século xix que gastava o maior tempão diante de um lago para captar as nuances da cena.
Mudar de condição social também acarretou uma guinada nos temas das minhas obras. O circuito de arte sempre me identificou como o preto que discorre sobre si próprio, a favela e a negritude. Com razão, né? As três séries de pintura que me notabilizaram – Reprovados, Pardo é papel e Novo poder – abordam mesmo esses assuntos. Surgi no momento certo, tá ligado? Críticos, marchands e colecionadores estavam ávidos pelos suvenires estéticos que ofereci. Houve, inclusive, quem tentasse colar em mim a pecha de ativista. Um erro crasso! Nunca desejei posar de ativista. O ativismo transita pelo terreno do profano. Já a arte pertence à esfera do sagrado. O artista deve experimentar, correr riscos, provocar o caos e plantar a dúvida em vez de se engessar numa causa. Não pretendo representar ninguém e tampouco salvar o “meu povo”. Todos os negros que pintei são apenas autorretratos, independentemente do gênero, da idade ou do ofício.
Em 2024, lancei a série Clube e inaugurei a segunda fase da minha carreira. Estou interessado agora no corpo branco, o tópico mais celebrado e exaurido da arte ocidental. Desde que ascendi, circulo quase unicamente por redutos da branquitude. Meus galeristas e vizinhos são brancos. Minha mulher se considera branca. A Goia nasceu branca. Não vejo, portanto, nenhum cabimento em prosseguir na trilha anterior. Inúmeros brancos pintaram negros: Frans Post, Debret, Rugendas, Manet, Tarsila do Amaral, Di Cavalcanti… Mas quantos negros tu conhece que pintaram brancos? Se a branquitude me converteu em queridinho, então bora retratá-la. Alguém vai dizer que não posso?
(revista piauí)

https://piaui.folha.uol.com.br/materia/o-cria-que-virou-playboy/

terça-feira, 1 de julho de 2025

Retratos do inferno

O massacre do Carandiru, nas pinturas de um sobrevivente

Em outubro de 1992, Luiz Paulino tinha 25 anos e cumpria pena na Casa de Detenção, presídio da Zona Norte paulistana conhecido por Carandiru. A alcunha coincidia com o nome do bairro onde ficava o complexo penitenciário, o maior da América Latina. Cerca de 7 250 prisioneiros se espremiam ali, número muito superior à capacidade máxima da cadeia. Embora integrasse uma família evangélica, Paulino – que nasceu em Presidente Bernardes (SP) e ganhou o apelido de Bizil ainda garoto – não seguia a religião desde adolescente, quando enveredou pelo crime. Nunca renegou a fé cristã, mas preferia manter distância da Bíblia, dos pastores e dos cultos. Mesmo se considerando uma ovelha desgarrada, acreditou que “o Senhor” lhe enviou duas mensagens naquele terrível mês de outubro.
A primeira chegou em sonho. “Um portão imenso e reluzente se abriu no Carandiru. Enfileirados, centenas de homens atravessavam o portão e desapareciam”, relembra Bizil. “Interpretei as imagens como um alerta de que algo relevante estava por acontecer.” O sonho se deu na madrugada do dia 2, véspera de eleições municipais. Pela manhã, ocorreu uma briga “entre o Barba e o Coelho”, detentos que ocupavam o pavilhão 9, destinado tanto para condenados quanto para quem aguardava julgamento. O bafafá eclodiu no horário do banho de Sol. “Por causa da confusão, os funcionários da bagaça encresparam. Quiseram botar a gente de volta no xadrez, e a chapa esquentou. ‘Qualé?!’, gritamos. ‘Não vamos aceitar, não! Perder o banho de Sol apenas porque o Barba e o Coelho resolveram tretar?!’” Rapidamente, o protesto virou motim. Tropas da Polícia Militar, sob o comando do coronel Ubiratan Guimarães, invadiram a penitenciária, dispararam pelo menos 3,5 mil tiros e mataram 111 detentos. O massacre se tornou o episódio mais sangrento da história carcerária brasileira.
No quinto andar do pavilhão 9, Bizil dividia a cela 531-E com sete prisioneiros. “Eram seis rapazes de Piracicaba e o meu tio, que também praticou uns procedimentos ilícitos.” Os oito estavam no corredor quando os policiais surgiram. “Se a gente continuasse zanzando fora da cela, as tropas iam fuzilar todo mundo. Por isso, entramos de novo no xadrez. Para dificultar a ação dos PMs, espalhamos água e óleo de cozinha pelo chão. Logo depois, tiramos a roupa e nos deitamos de bruços em cima daquela lambuzeira, com as mãos sobre a cabeça.” A posição indicava que os encarcerados não pretendiam oferecer resistência.
“Já perto da nossa cela, um dos policiais berrou: ‘Levanta, ô, Zé!’ Obedeci, e o maluco sentou o dedo na matraca. Só que a arma falhou, acredita? O sujeito, decepcionado, me mandou deixar o xadrez: ‘Pisa no veludo, Zé! Vai andando devagarinho.’” Foi então que Bizil recebeu o segundo aviso divino. “Meu espírito despencou num abismo bem escuro. À minha volta, inúmeros PMs babavam, possessos. Os caras tinham rabos de leão. ‘Seja corajoso’, rogou uma voz que brotava do além. ‘Você vai presenciar coisas horrorosas, mas não vai perecer.’” De fato, Bizil cruzou o inferno – ou Hades, como costuma dizer – enquanto caminhava do pavilhão 9 até o pátio sob a mira da polícia. “Vi soldados jogando corpos de presos no fosso do elevador e em caminhões de lixo. Escutei gente suplicando por misericórdia, levei muita porrada e senti o bafo assombroso da morte.” Mesmo assim, sobreviveu, à semelhança dos demais parceiros de cela.
O governo estadual desativou o Carandiru uma década depois do massacre, em 2002. Hoje, na área do complexo, se encontra o Parque da Juventude. Nenhum dos 74 policiais condenados pela chacina amargou um único dia de prisão. Passados trinta anos da matança, em dezembro de 2022, o presidente Jair Bolsonaro assinou um indulto natalino para extinguir a pena de todos eles. O Tribunal de Justiça de São Paulo ratificou o perdão.

Filho de um mestre de obras e uma dona de casa, Bizil se define como pardo. “Meu pai é branco dos olhos azuis. Minha mãe, que já morreu, tinha sangue indígena.” A família trocou o interior pela capital paulista na década de 1970. Para engrossar o orçamento doméstico, Bizil trabalhava quando criança. “Eu carregava mercadoria em feiras de rua e vendia samambaia no Viaduto do Chá. A polícia, que detesta pobre, sempre me esculachava: ‘Você está de vadiagem. Vai em cana!’ Me recolheram tantas vezes que pensei: ‘Honestidade não adianta nada. Deixa a vida me levar.’”
Ele cometeu os primeiros furtos ainda na adolescência. Depois, virou assaltante. Uma rixa entre quadrilhas fez com que assassinasse dois rivais. “Peguei 27 anos de cadeia, mas o juiz diminuiu a bronca para 25. Baixei no Carandiru em março de 1986 e mofei por lá até 1999. Uma pedreira! Pura neurose…” Completou a pena no regime semiaberto e nunca mais transgrediu a lei. “Sabe qual a pior facção do país? O Estado, que empurra o cidadão para o desvario, para a bandidagem, porque aliena a galera com um salário mínimo de fome, escola pública ruim e serviço médico de quinta. Assim que conquistei a liberdade, resolvi não dar sopa de novo. Prometi que o Estado criminoso jamais ia colocar as garras em cima de mim outra vez.”
Na prisão, Bizil teve aulas de pintura. Também aprendeu a esculpir em madeira e terminou um curso por correspondência de desenho publicitário. Quando deixou o Carandiru, começou uma frutífera carreira artística. De quebra, concluiu o ensino básico e três faculdades, “todas presenciais”: teologia, direito e pedagogia. Talvez por isso se expresse de um jeito muito próprio. Ora recorre às gírias da quebrada, ora adota um linguajar mais rebuscado.
Enquanto viveu “entre as grades”, não se reaproximou da liturgia evangélica, mesmo depois de receber “as duas mensagens dos Céus”. “Só retornei às Escrituras Sagradas fora do xadrez.” Casado há quase três décadas, mora numa chácara em Francisco Morato, na Grande São Paulo, participa de um grupo que acolhe dependentes químicos, frequenta a Assembleia de Deus e batizou os quatro filhos com nomes bíblicos: Melquisedeque, Rebeca, Miqueias e Joquebede. “Meu lema agora é foco, força e fé.”
À medida que o tempo avança, Bizil tem cada vez mais certeza de que não escapou por acaso da selvageria no Carandiru. “Saí ileso para impedir que a memória daquela barbárie se apague. A Constituição determina que o Estado ressocialize os presos. A PM não pode simplesmente invadir uma penitenciária e passar fogo.” Desde que alcançou o regime semiaberto, em 2000, o sobrevivente de 58 anos pinta o que testemunhou no dia 2 de outubro de 1992. Ele afirma que vende a maioria dos quadros para colecionadores do Brasil e de outros países – “China, Estados Unidos, México, Itália…” Até o início de julho, o Solar dos Abacaxis, no Rio de Janeiro, abrigou uma exposição com 25 pinturas de Bizil sobre o massacre. “Já nem sei quantas produzi. Trezentas? Quinhentas? Sei apenas que não cogito parar.”
(revista piauí)

terça-feira, 1 de abril de 2025

O detetive altruísta

Um sertanejo à procura de pessoas desaparecidas

O funcionário público Evanildo Rodrigues da Silva acorda com as galinhas. Todo dia útil, pula da cama às 5h30. Pouco depois, ainda de barriga vazia, já está mexendo na terra. Ele nasceu e mora em Guajeru, cidadezinha do sudoeste baiano que tem 8 mil habitantes. Ali quase não chove por causa do clima semiárido. Cortada pelo pequeno Rio do Antônio, a Caatinga domina a paisagem. “Vivo numa comunidade da zona rural, que abriga cinquenta famílias, se tanto. Em meu sítio, a agricultura e a pecuária são de subsistência. Cultivo milho, feijão, mandioca e uma porção de frutas: manga, seriguela, mamão, coco, abacate, melancia. Também crio aves, porcos e vinte cabeças de gado bovino.”
Silva auxilia o pai octogenário na roça até as 7h30. Em seguida, toma café, se arruma e corre para a Unidade Básica de Saúde (UBS) onde trabalha de recepcionista. Perto das 16 horas, reinicia a lida no campo. “O calor aqui ofende horrores. Então, é melhor cuidar dos bichos e das plantas bem cedo ou à tardinha, quando o Sol fere menos.” Logo após o crepúsculo, o funcionário público volta para a casa térrea de três dormitórios que divide com os pais, a companheira e o filho de 2 anos. No entanto, em vez de descansar, apanha o celular – um Galaxy A31 – e se dedica à tarefa diária de que mais gosta: procurar desaparecidos.
As buscas via internet consomem umas quatro horas por noite. Não à toa, Silva só vai dormir de madrugada. “Nos fins de semana, aumento a dose e banco o detetive o tempo todo.” Interrompe o rastreio apenas para jogar futebol ou participar dos cultos da Igreja Quadrangular, uma denominação evangélica pentecostal. “Comecei minhas investigações no segundo semestre de 2020, durante a pandemia, e me apaixonei pela atividade.” Daí em diante, calcula que já localizou 3,5 mil pessoas e as reaproximou de parentes queridos.

“Sou um sujeito emotivo. Por isso, sempre curti aqueles quadros da tevê que promoviam o reencontro de familiares. Passavam bastante na Record e no SBT”, relembra Silva. “Fulano de tal deixou os cafundós décadas atrás e nunca mais soube da mãe, dos irmãos, dos primos, de ninguém. Um dia, contou a própria história numa carta para o Gugu. A equipe do programa leu a correspondência, mexeu os pauzinhos e achou a parentada do cabra. Mano, aquilo me comovia à beça! Eu derramava umas boas lágrimas e matutava: como o pessoal da televisão consegue descobrir o paradeiro de tanta gente sumida?”
Mal a pandemia eclodiu, o funcionário público aproveitou o isolamento social para acompanhar grupos do Facebook em que os integrantes postavam retratos de desaparecidos na esperança de encontrá-­los. “Há muitas páginas do gênero porque não faltam crianças e adultos que se perderam pelo Brasil.” De fato: conforme o Ministério da Justiça, a polícia registrou cerca de 66 mil sumiços no país em 2024. Entre “os desgarrados”, como diz Silva, 20 mil tinham 17 anos ou menos.
Não raro, nos grupos do Facebook, internautas se voluntariavam para sair à caça dos desaparecidos e, depois, relatavam os casos solucionados. Em mensagens privadas, o funcionário público contatava os Sherlocks e lhes perguntava de que jeito resolviam os enigmas. Nenhum deles entregou o ouro. Certa vez, porém, uma mulher revelou que lançava mão de tecnologia digital. “Uso uns mecanismos de busca sofisticados”, explicou. “Você só precisa botar algumas informações sobre os sumidos ali, tipo nome completo, filiação e data ou lugar de nascimento. O computador se encarrega do resto.” Intrigado, Silva quis saber como ter acesso às plataformas. “Matricule-se num curso de detetive particular”, aconselhou a mulher.
Os tais mecanismos de busca esquadrinham uma infinidade de arquivos online, nem sempre de maneira legal. “Existem os que garimpam itens de fácil alcance na internet. Mas também existem os que vasculham acervos sigilosos, como os da Previdência Social, dos Detrans ou das telefônicas”, afirma o proprietário da Academia Federal de Investigação, uma escola porto-alegrense de detetives. Ele prefere não se identificar: “No meu ramo, quanto mais incógnito o profissional, maiores as chances de êxito.” Geralmente, as plataformas costumam cobrar uma taxa mensal de quem pretende utilizá-las.
O funcionário público – que festejará 40 anos em julho – seguiu a sugestão da mulher. Ingressou num curso à distância de detetive e, ao longo de noventa dias, desvendou os macetes do ofício. “O aprendizado me custou 600 reais, que parcelei em dez vezes, e agora gasto pelo menos 160 reais por mês para acessar os mecanismos de busca.” Os valores são elevados, já que Silva ganha um salário líquido de 1 470 reais na UBS.

Assim que terminou o curso, o funcionário público se colocou à disposição de uma vizinha, que não recebia notícias do irmão, Ramiro, havia mais de cinco décadas. O desaparecido trocou Guajeru por São Paulo durante a adolescência e evaporou. Depois de inserir os dados de Ramiro nos mecanismos de busca, Silva viu o milagre se desenhar. “Concluí que o senhorzinho estava em Toledo, um município do interior paranaense. O problema é que achei a rua do homem, mas não o endereço preciso.” O que fez, então? Abriu o Google Maps e analisou as imagens da rua até avistar uma loja que vendia ração para aves. A fachada do imóvel exibia uma placa com o telefone do estabelecimento. O funcionário público ligou no mesmo instante. “Quem atendeu disse que conhecia o Ramiro, sim. ‘Ele mora uns quarteirões adiante do meu’, detalhou. ‘Você se importa de chamá-lo?’, pedi. O cara da loja não se importou e… pronto! Matei minha primeira charada.”
Silva esclareceu o mistério de graça. A vizinha, entretanto, se sentiu tão feliz com o ressurgimento do irmão que teimou em ofertar um frango para o detetive principiante. “Só aceitei por educação. Logo que tirei o certificado do curso, decidi nunca cobrar pelos rastreamentos. Queria ajudar o próximo e nada mais. De que adianta viver sem deixar exemplos positivos?” Hoje, algumas pessoas ainda recompensam os esforços do funcionário público com presentinhos (“uma camisa, uma blusa”) ou modestas contribuições financeiras. “Mas, na maioria das vezes, minha única paga é a gratidão. Para mim, basta.”
Em média, 350 apelos de buscas pipocam semanalmente no celular dele. “Claro que não consigo acudir todo mundo. Uma pena…” Silva atrai um número tão grande de interessados porque divulga  missões bem-sucedidas no Instagram e Facebook. Sempre que localiza alguém, indaga se o desaparecido gostaria de reatar os laços com aqueles que o procuram. “Em caso de resposta negativa, não passo o contato para a família.” O funcionário público ressalta que jamais mostra o rosto nas mídias sociais. “Ofereço os meus préstimos sem me expor. A Bíblia nos alerta: ‘Quando tu deres esmola, não saiba a tua mão esquerda o que faz a direita.’ É uma lição de pudor que levo muito a sério.”
(revista piauí)

sábado, 1 de março de 2025

Amuleto às avessas

Uma cadelinha festeira e a má fase do Fluminense

Será que a Pretinha do Tricolor, o gracioso amuleto do Fluminense, parou de dar sorte? Será que a patinha quente da poodle esfriou? Talvez a dúvida esteja assombrando muitos torcedores do time carioca. Nada mais compreensível. Em fevereiro de 2022, a cadelinha – que agora tem 7 anos – chegou às redes sociais por um motivo tão insólito quanto divertido.
Ela não somente acompanhava todos os jogos do clube pela tevê como festejava os gols da equipe (e apenas os da equipe) com giros frenéticos e latidos. Depois que as cenas das comemorações viralizaram, Pretinha se transformou em big star. Protagonizou reportagens na mídia profissional, fez publis para marcas de renome e tirou um zilhão de fotografias junto dos fãs.
Quando a cadela ganhou fama, o Fluminense não conquistava nenhum torneio ou campeonato respeitável havia uma década. Em abril de 2022, contudo, a agremiação se sagrou campeã do Rio de Janeiro. Bateu o arquirrival Flamengo nas finais, o que deixou o triunfo ainda mais saboroso. Em 2023, o time disputou o título do Campeonato Carioca novamente contra o rubro-negro e, outra vez, levou a melhor. De quebra, faturou a dificílima Copa Libertadores da América, façanha inédita na história do clube.
Para os supersticiosos, o advento de Pretinha afugentou a urucubaca das Laranjeiras – bairro que abriga a sede do Flu – e selou as pazes do tricolor com a glória. Tudo indicava, portanto, que os resultados positivos se repetiriam em 2024. Só que não…
A equipe até começou a temporada de boas e abocanhou a Recopa, confronto em que o ganhador da Libertadores enfrenta o da Copa Sul-Americana. No decorrer do ano, porém, as coisas desandaram feio. O time apresentou desempenho pífio em todas as competições que encarou. Jogou a maior parte do Brasileirão, por exemplo, sob ameaça de rebaixamento. Escapou da degola somente na última rodada. Em janeiro de 2025, a bruxa continuou solta, e o Flu iniciou o Carioca com um empate sem gols diante do inexpressivo Sampaio Correa. Não satisfeito, cambaleou durante a primeira fase inteira, de tal modo que venceu míseras quatro partidas das onze disputadas. Mesmo assim, se classificou para as semifinais, que devem terminar logo depois do Carnaval.

Poodle tamanho um. É desse jeito que os especialistas qualificam Pretinha, um cão de pequeno porte e 7 kg. A numeração a diferencia dos poodles tamanhos zero (os toys), dois (os médios) e três (os gigantes). Desde 2018, a cachorra vive em São Gonçalo, município do Grande Rio. Divide um apartamento de aproximadamente 50 m² com os tutores: o taxista Abraão Moraes Barroso, a securitária Ana Lúcia e o filho do casal, Abraãozinho, que cursa estatística numa universidade pública. A família adquiriu a doguinho de um criador. “Ela tinha uns 60 ou 70 dias quando a pegamos”, relembra Barroso.
No apartamento do taxista, todos são tricolores doentes. Por isso, não perdem nenhum jogo do clube. Veem as partidas num televisor de 55 polegadas ou, mais raramente, no estádio. Quer dizer: Ana Lúcia nem sempre assiste às disputas. Caso se trate de uma batalha decisiva, ela guarda distância da transmissão para não sofrer em excesso.
Antes de Pretinha, a família cuidou de outras cadelas: Kaddy, Lily e Meggie. O trio não gostava de futebol, embora permanecesse diante da tela enquanto os tutores xingavam ou aplaudiam o Fluminense (a televisão fica no quarto do casal). As cachorras suportavam aquela patacoada por mera fidelidade. A poodle, entretanto, agiu de maneira diferente mal se defrontou pela primeira vez com um jogo da equipe. Prestou atenção em cada detalhe, mais ou menos como fazia quando a tevê exibia desenhos animados.
À medida que os meses passavam, a cadelinha emitia sinais de que sacava melhor a dinâmica das partidas. Ela as observava deitada sobre a cama de Barroso e Ana Lúcia. Nas ocasiões em que o Flu atacava perigosamente, Pretinha se erguia, mexia as orelhas e empinava o rabo. Só voltava para a posição de descanso após o término da jogada. Se o time marcasse um gol, a cachorra explodia de felicidade (ou algo que o valha). Irrompiam, então, os tais giros em círculo e muitos, muitos latidos. A poodle se portava assim apenas durante os confrontos do tricolor. Nos das outras agremiações, se mantinha impassível, à semelhança de um monge budista em meditação.
Inicialmente, o animal parecia imitar os tutores. Mas, depois, resolveu torcer por conta própria. Mesmo que ninguém desse um pio no quarto e que a tevê estivesse muda, a cadela identificava os lances promissores e celebrava os gols. Bastavam as imagens para atiçá-la. “Ela aprendeu tudo sozinha”, jura o taxista. “A gente nem saberia como treiná-la com tamanha eficiência.”
Certo dia, Abraãozinho filmou as reações de Pretinha, e Barroso as publicou em quatro grupos do WhatsApp – o dos parentes, o das peladas dominicais, o da igreja (a família é batista) e o de ex-colegas do Exército (“servi no 3º Batalhão de Infantaria quando jovem”). Os registros alcançaram Marco Aurélio de Oliveira, o Marcão, auxiliar técnico do Fluminense, que os divulgou imediatamente. Pronto: a mágica aconteceu. De uma hora para outra, a bichinha atingiu o estrelato.
Hoje, os perfis da cachorra no Instagram, TikTok e YouTube somam 855 mil seguidores. Quem os administra é Abraãozinho. “Toda vez que o tricolor joga, tenho que postar vídeos com as atitudes da Pretinha. A torcida meio que exige”, conta o rapaz. Entre as marcas que já encomendaram anúncios à cadela, figuram a Coca-Cola e a Paramount. Enquanto acompanha as partidas, Pretinha costuma vestir uniformes do Fluminense, confeccionados especialmente para cães.
Ela agora esbanja saúde, mas amargou sérios transtornos em outubro de 2023. Foi diagnosticada com câncer, precisou extrair uma das cadeias mamárias e passou um mês longe do futebol para que as “fortes emoções”, como dizia o veterinário, não atravancassem o pós-operatório.
À época da cirurgia, a família de Pretinha decidiu lhe arranjar companhia e adotou uma filhota de poodle, a Nina (o nome homenageia o zagueiro Nino, ex-capitão do Flu). A fedelha, no entanto, não manifesta o mínimo apreço pelo rude esporte bretão. Prefere dormir em frente à tevê sempre que 22 marmanjos se engalfinham por causa de uma bola.

“Claro que as más campanhas do Fluminense não têm qualquer relação com minha cachorra”, proclama Abraãozinho, num híbrido de indignação e deboche. O estudante acredita que o time fez uma aposta arriscada em 2024: contratou um número demasiado de “atletas experientes”, como o meio-campista Renato Augusto, o ponta-direita Douglas Costa e o volante Gabriel Pires, todos na faixa dos 30 anos. “O clube envelhece o elenco, e a culpa dos fracassos é da Pretinha?”
Sob a ótica do rapaz, a cadela continua, sim, abençoando a equipe. “Apesar do sufoco, o Fluminense avançou no Carioca de 2025 e, o mais importante, conseguiu se livrar do rebaixamento no Brasileirão. Eu mesmo pensei que já não havia chance de evitar a série B. Mas, no último instante, os ventos mudaram. Por quê, hein?”
(revista piauí)

sábado, 1 de fevereiro de 2025

Chame o ladrão

A “chave mágica” e a invasão de casas pela Polícia Militar nas favelas do Rio

A linha verde do metrô estava surpreendentemente calma naquele domingo ensolarado de abril. Os trens circulavam com muitos assentos vagos entre as zonas Norte e Sul do Rio de Janeiro. Elétricas, duas jovens conversavam perto de mim num vagão que o feroz ar-condicionado transformava em frigorífico. Elas regressavam de uma festa.
– Que programa maneiro, amiga! Música sinistra, bebida à vera. E tu, hein? Arrasou! Bonita, sarada, cheirosa! – elogiou a moça de tranças afro.
– Gostou do meu perfume? Francês, tá? – se gabou a outra, de calça florida, enquanto tirava da pochete um frasco da Dior.
– Ganhou do boy?
– Sim, acredita? Ele é um traste, mas às vezes acerta no presente.
– Pelo jeito, custou um dinheirão.
– Quatrocentos reais, no mínimo. Como não sou otária, evito sair de casa sem o vidrinho. Levo o perfume para o trabalho, o boteco, o mercado… Vou dar mole? Os polícias lá na favela não perdoam ninguém. Invadem o cantinho da gente e roubam tudo, né? Produto gringo, então… Os caras adoram!
– Volta e meia, nem quebram a porta. Usam a tal chavinha mágica, que abre qualquer fechadura.
– Pois é, a chave mestra…
As jovens não disseram o nome da favela. Continuaram papeando e desceram no Largo do Machado. A alusão às invasões arbitrárias de domicílios, porém, me inquietou. As amigas abordaram o assunto com uma naturalidade perturbadora. De tão corriqueiros, os abusos pareciam lhes exigir certa resignação.
Nunca vivi em lugares pobres do Rio. Mesmo assim, tenho conhecimento dos reiterados excessos que as forças de segurança pública cometem por ali. Como repórter, já colhi diversos relatos sobre arrombamentos injustificados de residências, notadamente pela Polícia Militar. As testemunhas contavam que os agentes do Estado destruíam as portas com pontapés, alavancas, marretas ou aríetes – cilindros grossos, longos e portáteis, quase sempre de aço. Escutar das duas moças que as autoridades também entram sorrateiramente nas moradias, sem arruinar maçanetas ou fechaduras, à semelhança de ladrões habilidosos, me espantou. Era um detalhe tão inusitado quanto cruel. Um pormenor que converte a violenta rotina das favelas num pesadelo ainda mais tenebroso.
Imagine se algo idêntico acontecesse em pleno “asfalto”, jargão que os cariocas empregam quando se referem às regiões abastadas da cidade. Suponha que, sob o arrepio da lei, policiais destrancassem com “chavinhas mágicas” um apartamento do Leblon ou um sobrado na Gávea. De que jeito os proprietários ou inquilinos reagiriam? E os vizinhos? E a mídia? E a Justiça?
Saltei do metrô ruminando o que ouvi das jovens. Enquanto caminhava por Botafogo, uma pontinha de dúvida me assaltou: será que as amigas não exageravam? Será que a polícia realmente costuma lançar mão de chaves mestras para violar domicílios? Nos meses seguintes, garimpei depoimentos que confirmaram a queixa das moças. De fato, há décadas, a expressão “chave mestra” frequenta as favelas do Rio. Moradores e comerciantes a mencionam sempre que denunciam situações equivalentes às descritas pelas garotas. Em termos técnicos, contudo, incorrem num erro.
Chave mestra é aquela capaz de abrir qualquer porta de uma única construção – um shopping, uma indústria, um casarão, um hotel. O instrumento dispõe de um design especial que o torna compatível com inúmeros tipos de fechaduras. Os interessados adquirem o utensílio em prol da segurança. Se o fogo ameaçar um hospital, por exemplo, a brigada de incêndio recorrerá à peça para acessar logo os recintos fechados. Em geral, a mesma empresa que produz as diferentes chaves de uma edificação também confecciona a mestra. Não existe, portanto, nada do gênero que consiga destrancar todos os imóveis de uma rua, vila, beco ou favela.
O que os invasores provavelmente utilizam são gazuas. Ou melhor: pequenas ferramentas metálicas, similares às que os chaveiros manuseiam quando precisam entrar num local sem a chave apropriada. Conhecidos igualmente pelo nome de “michas” e lock picks, os equipamentos estão à venda em kits com várias unidades de formatos distintos. Lojas online ou físicas podem oferecer conjuntos de sete peças por cerca de 40 reais. Já os de trinta peças giram em torno dos 150 reais. Uma infinidade de vídeos no YouTube ensina como usar os apetrechos. O domínio da técnica correta possibilita quebrar o segredo de uma fechadura em poucos segundos. Não bastasse, a internet também fornece dicas para quem deseja abrir portas com garfos, clipes, pinças, serrinhas e grampos de cabelo, objetos à disposição de qualquer um, inclusive de policiais.
Curiosamente, a legislação brasileira proíbe a fabricação, a comercialização ou a cessão de gazuas e demais instrumentos que facilitem a prática de furtos. O veto aparece no artigo 24 da Lei das Contravenções Penais, em vigor desde outubro de 1941. Os infratores correm o risco não apenas de pagar multa, mas de amargar entre seis meses e dois anos de cadeia. Hoje, no entanto, a interdição dificilmente se aplica. Muitos juristas a consideram excessiva e anacrônica.
O artigo 25 da mesma lei não permite que condenados por roubo ou furto, “vadios”, “mendigos” e cidadãos sob liberdade vigiada carreguem aqueles utensílios, exceto se provarem “destinação legítima”. Os transgressores poderiam cumprir até um ano de prisão, além de sofrer multas. Ocorre que, em 2013, o Supremo Tribunal Federal (STF) classificou o artigo de inconstitucional e o anulou. Para a Corte, punir alguém pelo simples motivo de portar uma ferramenta com potencial criminoso atenta contra a presunção de inocência, denota preconceito e fere o princípio da igualdade entre todos.
A Constituição de 1988, aliás, afirma que “a casa é asilo inviolável do indivíduo” e que não se deve adentrá-la sem consentimento do ocupante, salvo em quatro circunstâncias: para socorrer uma pessoa; quando houver um desastre; caso um flagrante delito esteja acontecendo no domicílio; por ordem judicial, desde que durante o dia.
A lei nº 13301, promulgada há quase nove anos pelo então presidente Michel Temer, prevê uma quinta circunstância: agentes de saúde, acompanhados ou não de policiais, têm o direito de ingressar à força numa residência se necessitarem combater a dengue, a chikungunya, a zika e outras doenças que ameacem a sociedade. A atitude radical, entretanto, só vale em imóveis cujos responsáveis dificultarem a vistoria sanitária.
Ainda de acordo com a legislação nacional, o conceito de casa é bastante amplo. O Código Penal a define como “qualquer compartimento habitado” ou como um espaço privado onde alguém exerce atividade profissional. Assim, o consultório de um dentista, a boleia de um caminhão e o escritório de um arquiteto configuram domicílios. “As leis do país não deixam a menor dúvida sobre o que é uma residência e em quais contextos o Estado pode invadi-la. Por isso, quando penetra ilicitamente num casebre de favela, a polícia sabe muito bem que avançou o sinal”, diz o advogado popular Guilherme Pimentel, ex-ouvidor-geral da Defensoria Pública do Rio.

Em 2023, 13% do território carioca estava sob o jugo de milicianos ou do narcotráfico, dominado pelas facções rivais Comando Vermelho, Amigos dos Amigos e Terceiro Comando Puro. O poder paralelo controlava 155 km² da cidade – área superior às de Mesquita, Belford Roxo e outros municípios próximos. Quase todas as 813 favelas da capital se encontravam nos bolsões em que o crime imperava. As conclusões são do Instituto Fogo Cruzado e do Geni, o Grupo de Estudos dos Novos Ilegalismos, que pertence à Universidade Federal Fluminense. Os dados de 2024 ainda não saíram, mas tudo indica que o quadro mudou pouco.
Com o pretexto de frear o banditismo, operações planejadas ou emergenciais das forças de segurança se tornaram rotineiras. O Geni calcula que, entre janeiro de 2007 e setembro de 2024, houve uma média de 105 delas por mês na Região Metropolitana do Rio. Os agentes estatais se lançaram principalmente sobre comunidades de baixa renda para apreender drogas e armas, resgatar mercadorias roubadas, executar mandados de prisão, desfazer barricadas e retaliar ataques de criminosos. As investidas, não raro, desencadearam tiroteios, que provocaram lesões e mortes. Conforme o Geni, de 2007 até setembro de 2024, as operações no Rio e nas redondezas da cidade feriram 27 pessoas e mataram 33, em média, por mês.
Os abusos de autoridade costumam eclodir justamente ao longo dessas incursões. Não à toa, o Ministério Público do Estado mantém um plantão que as fiscaliza. Entre maio de 2021 e novembro de 2024, o órgão contabilizou 58 denúncias de invasões domiciliares pelas polícias Militar ou Civil. Os episódios se deram tanto na capital quanto em São Gonçalo, na Baixada Fluminense e em Niterói. O Complexo da Maré – um aglomerado de quinze favelas cariocas – também monitora operações policiais, mas apenas as que o atingem. De 2016 até o início de dezembro passado, as forças de segurança violaram pelo menos 278 casas por lá. “O problema é que nenhuma estatística consegue espelhar a realidade. Existe uma imensa subnotificação”, ressalta Pimentel. “Normalmente, os afetados se calam diante dos horrores que vivenciam. Quem ousa acusar um agente enfrenta o perigo de revanches porque faltam mecanismos oficiais de proteção àqueles que abrem a boca.”
Em 2018, defensores públicos e representantes de 29 instituições – como a Assembleia Legislativa, o Coletivo Papo Reto, o Human Rights Watch, a Comissão Popular da Verdade e a Rede contra Violência – percorreram 23 localidades pobres na Região Metropolitana do Rio para coletar depoimentos sobre arbitrariedades recorrentes das forças de segurança. As centenas de testemunhas não precisaram se identificar. O resultado da pesquisa está no relatório Circuito de favelas por direitos. Em meio às muitas afrontas citadas, figura a violação de residências. Os entrevistados revelaram que os invasores saquearam os imóveis, danificaram eletrodomésticos ou mobílias, estragaram alimentos e praticaram agressões sexuais. “Quando desempenhei a função de ouvidor-geral na Defensoria, cansei de escutar histórias assim”, recorda Pimentel. “Uma vez, soube de PMs que jogaram sabão em pó numa panela cheia de arroz só para sacanear um morador.”
Enquanto recolhiam os depoimentos, os responsáveis pelo relatório se defrontaram com uma solicitação desconcertante. “Srs. policiais! Favor não arrombarem as portas das casas. Pegar as chaves no número 3 […]. Obrigado!”, rogava um precário cartaz afixado diante de uma residência em Duque de Caxias, município da Baixada Fluminense.
Certas brutalidades acabam furando a habitual bolha de silêncio e chegam à imprensa. Em fevereiro de 2017, ativistas de organizações sociais constataram que agentes de uma UPP (Unidade de Polícia Pacificadora) haviam ocupado cinco domicílios no Complexo do Alemão para observar a movimentação de criminosos. O conjunto de quinze favelas se espalha pela Serra da Misericórdia, um maciço rochoso da Zona Norte carioca. Numa das residências, os policiais ficaram por alguns meses e depredaram o cômodo onde se alojaram. O caso ganhou manchetes em portais como o g1 e o do jornal Extra. Pressionada, a Justiça Militar se mexeu e condenou o major Leonardo Gomes Zuma, que chefiava a UPP. Ele pegou um ano e onze meses de prisão em regime aberto.
No dia 7 de fevereiro de 2022, homens do Batalhão de Ações com Cães e do Batalhão de Choque roubaram uma casa da Vila Aliança, favela do Rio que integra o bairro de Bangu. Uma câmera de vigilância registrou o delito. Os moradores – que não presenciaram a ocorrência – tinham instalado o equipamento na sala depois de receber dez “visitas” policiais em quatro meses. Os militares, armados de fuzis, levaram uma caixa de som, 1 kg de carne congelada, um vidro de perfume e oito águas de coco. Telejornais da Rede Globo exibiram cenas da pilhagem. Na ocasião, o tenente-coronel Ivan Blaz, porta-voz da PM, informou à emissora que os envolvidos seriam afastados das ruas e poderiam sofrer penalidades disciplinares.

“Infelizmente, noto uma enorme complacência das polícias em relação às violações de imóveis dentro das favelas”, lamenta o sociólogo Daniel Hirata, coordenador do Geni. “Os abusos se acumulam porque, no fundo, as forças de segurança enxergam as invasões como parte de um modus operandi legítimo. Trata-se de uma tática extraoficial, de uma estratégia muito arraigada, que resulta em punições apenas excepcionalmente. Não acredito que exista o desejo genuíno de coibi-la. Se existisse, as irregularidades deixariam de acontecer com tanta frequência.”
Hirata lembra uma gíria comum na PM fluminense: “minerar”. “Significa o mesmo que saquear. Tem agente que acha justo invadir casas durante uma operação para furtar o que lhe der na telha. Os objetos roubados adquirem o status de butim. Viram espólios de guerra, uma compensação pelos riscos que os policiais correm.”
O sociólogo frisa que o próprio Judiciário respaldava as violações quando autorizava buscas e apreensões generalizadas nas áreas pobres do Rio. “Era algo trivial. Os juízes assinavam mandados que permitiam à polícia entrar em qualquer residência de uma comunidade sem o aval dos inquilinos ou donos e sem discriminar a razão. Ainda que não houvesse nenhuma suspeita nem acusação contra determinado morador, as forças de segurança podiam desrespeitar a privacidade dele.” O Superior Tribunal de Justiça (STJ) considerou as autorizações ilegais em novembro de 2019, e os magistrados pararam de concedê-las.
“Qualificar as invasões de domicílios como meros desvios de conduta policial me parece um equívoco. Por serem corriqueiras, as transgressões evidenciam uma política que criminaliza os habitantes de favela e os transforma em cidadãos de segunda classe”, avalia Guilherme Pimentel. “Para certos agentes da lei, os moradores de Ipanema merecem que se obedeça à Constituição, mas os da Rocinha… Conheço PMs que pensam bobagens do tipo: ou o favelado é traficante, ou apoia o tráfico, já que não delata ninguém.”
Desde 2021, por decisão do STF, policiais civis e militares do Rio precisam usar câmeras nas fardas em todas as missões que não impliquem atividades de inteligência. A medida, teoricamente, coibiria excessos. Tentei aprofundar o assunto com ambas as corporações, só que nenhuma respondeu às minhas perguntas. Quantas câmeras possuem? O número atende às demandas operacionais? Quantos agentes de fato utilizam os dispositivos?
Em julho de 2024, o telejornal RJ-1, da Globo, flagrou diversos soldados e oficiais da Polícia Militar sem os aparelhos na capital fluminense. Consultada pela reportagem da emissora, a corporação declarou que tinha equipamentos o bastante. Seriam quase 13 mil à disposição dos profissionais. Ainda segundo a instituição, o policial que abdicasse da câmera ou que a empregasse inadequadamente cometeria falta grave e enfrentaria sanções. Outra matéria da Globo, divulgada no programa Fantástico, em novembro de 2024, mostrou que PMs retiravam os dispositivos dos uniformes ou tapavam as lentes enquanto achacavam pequenos comerciantes de Nova Iguaçu. Depois de uma denúncia anônima, a Corregedoria investigou o caso e prendeu 22 agentes por corrupção passiva.
“Pelas notícias que recebemos, a Polícia Civil está ainda mais longe de cumprir a resolução do Supremo, uma vez que nem sequer implantou os aparelhos”, diz André Castro, coordenador do Núcleo de Defesa dos Direitos Humanos (Nudedh) na Defensoria Pública do Rio. A legislação estadual determina que as corporações guardem as imagens dos equipamentos por sessenta dias. Em algumas circunstâncias, o prazo pode aumentar.
As polícias devem entregar os registros sempre que a Defensoria, o Ministério Público ou a Ordem dos Advogados do Brasil reivindicar. Entre janeiro e julho do ano passado, o Nudedh expediu 224 ofícios à Ouvidoria da PM em que requisitava gravações para averiguar possíveis maus-­tratos contra detidos. A corporação não liberou as cenas de 64 pedidos. Sustentou as negativas com diferentes argumentos: os policiais não pegaram as câmeras quando iniciaram o turno ou não as manipularam de maneira correta; a bateria dos aparelhos descarregou; o sistema do consórcio que gere os dispositivos falhou.
Também questionei as duas corporações sobre as invasões de casas em favelas. A Polícia Militar não se pronunciou. Já a Civil explicou, numa nota sucinta, que realiza “planejamentos prévios e detalhados” antes de todas as operações. As ofensivas seriam fundamentais porque as facções e milícias se valem das comunidades para esconder lideranças e praticar delitos, cujos frutos patrocinam a expansão da delinquência. “Os moradores se tornaram reféns das organizações criminosas, e a polícia é a única instituição de Estado que procura libertá-los”, salientou a nota. A corporação afirmou, ainda, que os infratores “utilizam uma rede de contrainformação, principalmente digital, para descredibilizar o trabalho das forças de segurança”.

Em 1974, Chico Buarque lançou o samba Acorda amor, que começa e termina com ruídos de sirene. A letra, tragicômica, narra a violação de uma residência por policiais: Tem gente já no vão da escada/Fazendo confusão, que aflição. Os invasores são lacaios da ditadura que, sob a desculpa de salvaguardar a ordem, não hesitam em barbarizar. Daí o protagonista da canção implorar à parceira, quando percebe que a “muito escura viatura” irá levá-lo: Chame, chame, chame/Chame o ladrão, chame o ladrão. Se o mocinho não protege mais, o bandido protegerá?
Meio século depois, o samba se mantém relevante, embora o cenário político seja outro. Nas favelas do Rio, o regime de exceção continua dando as cartas.
Leia, a seguir, cinco testemunhos à piauí de pessoas sem envolvimento com o crime que tiveram os domicílios invadidos pela Polícia Militar graças à “chave mágica”. Para evitar retaliações, os entrevistados substituíram os próprios nomes e os dos demais personagens por pseudônimos.

As joias da Pombajira
“Faz um tempão, mas ainda me lembro de cada detalhe. Eu beirava os 13 anos e morava com minha família na Favela da Quitanda. Conhece? Fica no Complexo da Pedreira, em Costa Barros, perto da Pavuna. Mais Zona Norte, impossível. Logo pela manhã, a Polícia Militar iniciou uma expedição gigantesca nos arredores da nossa casa, com helicóptero, cachorros e o escambau. Parece que os policiais queriam libertar um sequestrado. Era a década de 1990. Naquela época, a cidade do Rio enfrentava uma onda de sequestros. Toda hora a bandidagem capturava alguém importante. Por causa da operação, as escolas do Complexo suspenderam as aulas. Meu pai, que trabalhava numa transportadora, estava de férias e resolveu preparar o almoço. ‘Lélia, vou dar um pulinho no sacolão para comprar um maço de coentro’, me avisou. Ele adora comida nordestina porque nasceu em Pernambuco. Baião de dois, moqueca, vatapá… Tudo prato que leva coentro, né?
Enquanto meu pai escolhia o tempero, PMs e traficantes começaram um tremendo quebra-pau. Negócio feio, feio, feio. Só tiro, porrada e bomba. Se não me engano, o Terceiro Comando [facção já extinta, que antecedeu o Terceiro Comando Puro] dominava a Favela da Quitanda. Com medo de tomar uma bala, meu pai decidiu permanecer no sacolão. Passou cinco ou seis horas lá, sem enviar notícias, pois quase ninguém tinha celular. Minha mãe, angustiada, pegou os quatro filhos, saiu de casa, trancou a porta e pediu refúgio à dona Elaine. A gente vivia numa espécie de vila, um canto da favela com oito domicílios. Sempre que rolava uma guerra, os vizinhos se juntavam. Abandonavam as próprias casas e corriam para a da dona Elaine, no fundo da vila e um pouco mais espaçosa. Sabe aquele papo de que a união faz a força? O pessoal sentia a barra menos pesada quando se aglomerava.
Sete mulheres adultas, incluindo a minha mãe, buscaram abrigo na sala da dona Elaine com uma porção de crianças e adolescentes. Ficamos agachados bem longe da janela para que os tiros não nos atingissem. A porta da rua estava trancada. Mesmo assim, um grupo de policiais – todos homens – conseguiu abri-la e entrou na casa sem a menor cerimônia. Os caras, de toucas ninjas e uniformes camuflados, não destruíram o batente, a maçaneta ou o trinco. Certeza de que usaram a tal da chave mestra. ‘Cadê os traficantes? Vocês esconderam os putos aqui?’, perguntaram, cheios de valentia, antes de revistarem cada um de nós. Eles não pouparam nem a molecada. Para a polícia, crianças e adolescentes de favela nunca são inofensivos.
Quando um dos militares fez menção de espiar os quartos, minha mãe encrespou: ‘Vou com você!’ Ela morreu muitos anos depois, em 2011, de um AVC. Era do candomblé, rezadeira das boas, e costumava promover ações sociais na comunidade. A vizinhança inteira a respeitava. O PM preferiu não discutir e autorizou que aquela senhora atrevida o acompanhasse. Minha mãe nos explicou mais tarde: ‘Não se larga policial sozinho em cômodo nenhum. Basta um vacilo, e os canalhas plantam droga na casa de inocente.’
À medida que os PMs zanzavam de lá para cá, meu coração acelerava. Eu observava os sujeitos com armas imensas e pensava: ‘Se um deles perder o controle… Vai ser uma chacina!’ Às tantas, o grupo finalmente se retirou. A dona Elaine voou para a porta e a trancou de novo. Você acredita que, até as três da tarde, a polícia violou a casa mais quatro vezes? Sempre com a porcaria da chave mestra. Pelotões diferentes brotavam na sala, tocavam o terror e pulavam fora. Assim que um grupo se mandava, a dona Elaine repetia o ritual: voava para a porta e a trancava. Adiantava? Não… Recordo que, numa das invasões, um policial zombou da gente: ‘Por que vocês estão juntinhos? É excursão, é? Os bonitos vão visitar Aparecida do Norte?’
Pouco depois da operação terminar, voltamos à nossa casa e encontramos tudo aberto. Uns PMs haviam destrancado a porta, novamente com a chave mestra. Foi, pelo menos, o que os moradores de uma rua próxima nos contaram. Eles testemunharam a merda toda à distância. Logo que entrou, minha mãe disparou para o quarto de casal. O guarda-roupa mal se aguentava em pé. Os policiais tinham detonado o móvel à procura de coisas valiosas. Quebraram as fechaduras, tiraram as gavetas, arrancaram as prateleiras e acabaram descobrindo o dinheirinho que meu pai economizava para reformar o banheiro. Adivinha se os caras meteram a mão na grana…
Não contentes, ainda furtaram os anéis, as pulseiras e os colares da Pombajira. O babalorixá do terreiro onde minha mãe se iniciou é militar. Por isso, uma galera do Exército frequentava as festas dele. Capitão, major, coronel… Um povo das altas esferas. De vez em quando, os milicos pediam conselhos à Pombajira que minha mãe incorporava. Como recebiam bons salários, gostavam de mimar a entidade com joias. Minha mãe, hipercautelosa, evitava deixar os presentes no altarzinho que mantinha em casa. Botava os badulaques dentro do guarda-roupa justamente para prevenir roubos. Naquele dia, a polícia fez a limpa. Não sobrou nada de nada.
Indignado, meu pai cogitou denunciar a ladroagem, mas mudou de ideia rapidinho. Se abrisse o bico, iria cair numa armadilha. Hoje você denuncia e, amanhã, o que acontece? Um PM o aborda numa esquina, diz que você o desacatou e…”

A yorkshire terrier
“Quando acordei, o policial militar já infernizava a minha mãe. Lógico que não arrisquei perguntar como o verme se enfiou na nossa casa. Espiei o relógio: nove da manhã. Lá fora, o bicho pegava. Era tiro para todo lado.
Nasci e sempre morei na Zona Norte do Rio – mais exatamente, no Complexo da Maré. Estávamos em 2014. Minha mãe, catadora de recicláveis, manuseava umas garrafas plásticas na sala enquanto os três filhos ainda se espreguiçavam. Meu padrasto tinha saído às seis e meia. Ele ganhava a vida como ajudante de caminhão.
Desde que me conheço por gente, o Comando Vermelho controla a parte da Maré onde vivo. Naquela manhã, rolava uma megaoperação da PM, com a justificativa de praxe: caçar traficante. ‘Curioso… Uma das tuas crias é mais branca que as outras. Por quê? Tu arranjou filhos de homens diferentes?’, indagou o policial à minha mãe. O sujeito observava um retrato da nossa família que ficava sobre um armário. Sou negro e, de fato, tenho a pele mais clara que a de meus irmãos. Do quarto, escutei a pergunta inconveniente. Pulei da cama e me aproximei da sala. Minha mãe espumava de raiva: ‘Por acaso, vou à tua casa para xeretar? Já quis saber com quem teus pais dormem ou deixam de dormir? Tu me respeite…’ Constrangido, o PM tossiu seco, colocou o rabo entre as pernas e ralou.
Nós morávamos num sobrado. Meus tios ocupavam o andar de cima, mas estavam viajando. Outro policial tentava abrir o portão que dava acesso à escada. Minha mãe percebeu: ‘Tu pretende subir? Não tem necessidade de forçar a fechadura. Eu mesma abro o portão e te levo.’ Assim que chegou à casa dos meus tios, o PM avistou diversas peças de moto no piso da cozinha. ‘Aqui funciona um desmonte?’, ironizou. Minha mãe revidou na lata: ‘O meu cunhado não é ladrão! É mecânico de uma concessionária em Madureira.’ O policial continuou zoando: ‘Mecânico? Trabalhinho sujo, né? A senhora garante que não vou achar nenhum fuzil escondido pelos cantos?’ Mais uma vez, minha mãe peitou o demônio: ‘Fuzil só tem lá embaixo. O meu fuzil… Quer ver?’ Os dois desceram a escada e regressaram à nossa casa. Minha mãe entrou sozinha num dos quartos. Quando saiu, esticou os braços e disse: ‘Olha o meu fuzil.’ Ela segurava a Bíblia.
Somos testemunhas de Jeová e acreditamos que Jesus pode vencer todos os males. Diante daquela situação, o PM resolveu parar de gracinha. Virou as costas e zarpou em silêncio. Quatro anos depois, também durante uma operação, um agente do Bope – a tropa que a Polícia Militar considera de elite – bateu na minha porta. Eu já estava casado e morava em outro imóvel, um cubículo de 30 m². O policial comunicou que precisava examinar a residência, mas não detalhou o motivo nem apresentou mandado judicial. Tão logo enveredou pela sala, topou com uma estante repleta de livros sobre direito. Leu os títulos de alguns deles e começou um interrogatório:
– Qual teu nome?
– Daniel.
– Vive com quem?
– Com minha mulher.
– Ela trabalha?
– Sim. É empregada doméstica.
– E tu?
– No momento, apenas estudo.
– Para ser advogado, pelo jeito.
– Exato. Curso direito na PUC.
– PUC?! Universidade boa… Vai se especializar em que área?
– Ainda não decidi.
– Pensa em defender bandido?
– Ainda não decidi mesmo.
– Vou te dar um conselho: quando se formar, mete o pé daqui. A Maré não é lugar para gente como tu.
Na época, minha cadela de estimação, a Caramelo, tinha menos de 1 ano. Eu a carregava enquanto o PM me questionava. Ele gostou da bichinha.
– Cachorra fofa. É de raça?
– Sim, yorkshire terrier. Ganhei de um conhecido.
– Vai castrar?
– Talvez.
– Vou te dar outro conselho: melhor não castrar. Uma cachorra dessas custa muito caro. Os filhotes dela podem render uma fortuna.
Eu respondia às perguntas sem compreender o que o agente queria. Ele procurava algo? Cogitava me extorquir e desistiu quando sacou que lidava com um aluno de direito? Não sei… Depois de circular pela sala, o policial me desejou bom-dia e foi embora.
Passaram-se uns meses e houve mais uma incursão do Bope na favela. Eu e minha mulher não presenciamos a operação porque estávamos trabalhando. À noite, mal retornamos, a vizinha nos viu abrindo a porta e alertou:
– A polícia invadiu a casa de vocês. Chave mestra, para variar…
– Quantos caras? – perguntei.
– Uns quinze.
– Quinze homens em 30 m²?! Nunca imaginei que coubesse tanto marmanjo no nosso palácio.
Os PMs não roubaram nem quebraram nada. Apenas puseram água e ração para a Caramelo. Vai entender… Se espremer a memória, me lembrarei de outros episódios semelhantes. Enfrento as arbitrariedades do Estado desde menino. Por isso, virei advogado e, com a graça de Deus, espero ingressar na Defensoria Pública. Vou estudar cada vez mais as leis e as jurisprudências para me proteger dos abusos e acudir os pobres que as autoridades humilham. Como não sou nenhum ingênuo, estou consciente de que meus esforços têm limites. Na real, só vejo um caminho para alterar as coisas profundamente: resetar a humanidade.”

Troia
“Perdi o meu marido em dezembro de 2020, durante a pandemia. Ele pegou o coronavírus e não resistiu. Três meses depois do funeral, resolvi mudar de ares. Viajei com uma colega para João Pessoa na esperança de atenuar o luto. Permaneci uns dez dias por lá. No sábado em que voltei, o Complexo da Pedreira, onde sempre vivi, esbanjava sossego. O comércio fluía, a criançada batia bola e a galera do Terceiro Comando Puro jogava conversa fora enquanto vigiava as bocas de fumo. Quando cheguei à minha casa, não consegui entrar. O portão de ferro, daqueles altos e maciços, sem grades, parecia travado. Girei a chave um milhão de vezes e nada. A fechadura destrancava, mas o portão não se movia. Intrigada, liguei para o meu irmão, que morava perto de mim: ‘Luís, preciso de um help.’
Mal iniciei a descrição do problema, uma voz masculina ressoou atrás do portão: ‘Desliga o celular!’ Levei um baita susto. Eu não podia ver quem gritava do outro lado. ‘Qual o teu nome? O que tu faz na minha casa?’, indaguei. O cara subiu ainda mais o tom: ‘Não interessa! Desliga o telefone!’ Avisei que não desligaria. O sujeito abriu uma fresta do portão. Era um policial militar. ‘Te conheço? Por que tu se meteu aí dentro?’, insisti. Confirmei, então, que a fechadura não tinha mesmo nenhum defeito. O PM havia usado a chave mestra para invadir a residência. Em seguida, bloqueou o portão com um fuzil.
Meu irmão – que escutava cada palavra pelo celular – apareceu, ofegante: ‘O que está pegando, Maíra?’ Respondi: ‘Também gostaria de saber…’ O policial, agora menos agressivo, finalmente abriu todo o portão e autorizou que entrássemos. Outros dois militares papeavam na sala. ‘Puta que pariu! Ninguém merece…’, reclamei, quase às lágrimas. Os PMs explicaram que fugiam de um criminoso fortemente armado: ‘Ou a gente se escondia no terreno da senhora, ou o malandro cancelaria o nosso CPF.’
Tudo caô. A colcha da minha cama se esparramava pelo chão. Na geladeira, que esvaziei antes de viajar, me deparei com uma garrafa de suco. A manta de fuxico não cobria mais o sofá. O banheiro fedia de tanta sujeira, e o ar-condicionado já não se encontrava no buraco da parede. Só um idiota iria engolir que os policiais ocuparam a casa por necessidade. Quem está fugindo de bandido não se deita na cama e no sofá dos outros, não suja banheiro, não põe suco para gelar nem tira ar-condicionado do lugar. Claro que os homens tinham se instalado ali.
Uma de minhas principais amigas é sargento da pm. Ela me passou a fita logo que lhe expus a situação: ‘Emboscada, menina! Os caras iriam observar a rua pelo buraco do ar-condicionado. À noite, matariam alguém do tráfico, roubariam a arma dele e a venderiam no mercado paralelo.’ A moça contou que tocaias do gênero recebem o codinome de ‘troia’ na polícia. Deve ser por causa daquela história antiga, né? A do cavalo de Troia.
Depois que os militares pediram desculpas e se picaram, meu irmão procurou o gerente do morro para colocar os pingos nos is. Esclareceu que os policiais surgiram de surpresa e que nenhum de nós os acobertou. Já pensou se os traficantes cismassem que a gente estava de trairagem? Virgem Maria! O crime não perdoa X9 na favela…
Fiquei casada por oito anos. Quando a Covid levou o meu marido, decidi morar sozinha pela primeira vez e deu no que deu. Não bastasse a viuvez, ainda tive de lidar com o pânico de que os PMs retornassem. Eu atravessava as madrugadas de olhos abertos. Qualquer barulhinho me alarmava. Sou assistente social e, na época, fazia mestrado. Em razão da insônia, não conseguia estudar ou trabalhar direito. O cansaço me consumia. Demorei um século para recuperar o equilíbrio.
Hoje, prefiro ver cem bandidos na minha frente do que um pm. Sério mesmo. Em geral, os criminosos da Pedreira evitam importunar a vizinhança. Minha amiga sargento costuma dizer que desconfia de todo policial. Ela pertence à corporação há uma década e não bota fé nos malucos. Eu vou botar?”

De cueca
“Já gostei muito de malhar. Em 2015, frequentava religiosamente uma academia próxima à minha rua, no Complexo do Chapadão. A quebrada se alastra por cinco bairros da Zona Norte carioca. Mais de quarenta comunidades fazem parte dela: Pedra Rasa, Chico Mendes, Força do Povo… Um mundo! Há quem se refira às comunidades como favelas. Eu não. A palavra favela me soa pejorativa. Naquela manhã, terminei de treinar às 11 horas. Quando caminhava de volta para casa, avistei uma picape do Bope. O carro, repleto de policiais, se deslocava bem devagar. Notei que os militares me radiografavam com malícia. Um dos sujeitos, inclusive, arriscou um tchauzinho. Em compensação, os soldados do Comando Vermelho que controlavam a área estavam na miúda. Não tinham o menor interesse de arrumar confusão.
Assim que entrei em casa, tranquei a porta, tirei a roupa de ginástica e liguei o chuveiro. Larguei minha filha de 17 anos e minha neta na sala. Sou técnica de enfermagem e logo iria para o trabalho. Meu marido, segurança de uma loja, havia levantado cedo e saído antes das oito. De repente, minha filha gritou: ‘Mãe, polícia!’ Estranhei: ‘Polícia?!’
Interrompi o banho, regressei à sala e me deparei com um dos agentes que circulavam pelo Chapadão na picape do Bope. Era um tipo forte, alto e de feições orientais – coreanas, talvez. Ele não bateu na porta nem a arrombou. Usou a chave mestra ou sei lá o quê.
– Como você se chama? – me perguntou.
– Vitória.
– Imaginei que estivesse sozinha.
– Imaginou errado. O senhor quer revistar a casa?
– Não… Eu queria outra coisa…
Olha só o atrevimento! Fechei a cara e não disse mais nada. Minha filha também demonstrou indignação. Depois de sorrir com um jeito maroto, o policial sussurrou uma bobagem qualquer e saltou fora. Aquilo me abalou à beça. Mil hipóteses inundaram meus pensamentos. Eu poderia, sim, estar sozinha. Pior: minha filha poderia estar sozinha. Nessas circunstâncias, será que o PM ainda iria se frear? Como ter certeza de que o infeliz não retornaria? Para me tranquilizar um pouco, comprei um casal de pit bulls.
Em 2020, enfrentei uma provação bem maior. Foi na fase inicial da pandemia. O coronavírus me derrubou, e precisei ficar uma semana de molho. Santo Deus, que perrengue! Eu sentia um desânimo absurdo e mal conseguia abandonar a cama. Às dez da manhã, tocaram a campainha. Só o meu marido e os meus filhos menores – um adolescente, o Guilherme, e uma criança, o Wellington – me acompanhavam em casa. O resto da família não se encontrava.
O Wellington, coitado, também andava doente. Ele sofria de leucemia e acabou morrendo em junho de 2022. ‘Pai! Mãe! Parece que uns policiais estão a fim de entrar’, nos avisou o menino, que via desenho animado na sala. Realmente, um bando de PMs cercava nossa residência. ‘Abra a porta, Wellington. Não devemos nada à polícia’, autorizei do quarto, um tanto grogue. Três homens de uniformes camuflados desembestaram pela casa com um pastor alemão. Minha gata, apavorada, buscou proteção atrás da tevê. Os caras apontaram os fuzis para o Wellington sem nenhuma necessidade. Que perigo um garoto debilitado ofereceria? No quintal, os pit bulls se agitavam como bichos enjaulados. Sorte que os policiais não ousaram acalmá-los. Certamente, os cães destroçariam o pastor alemão.
O Guilherme cochilava em outro quarto, apenas de cueca. Um PM atarracado se dirigiu para lá enquanto os demais ainda intimidavam o Wellington. Com ajuda do meu marido, saltei da cama e baixei na sala. ‘Deixem os meninos em paz!’, implorei. Minha súplica não surtiu o mínimo efeito. O policial atarracado invadiu o quarto do Guilherme, que sempre adorou dormir na escuridão. Quanto menos claridade, melhor. Cheio de marra, o sujeito despertou o rapaz, puxou do bolso o próprio celular e acessou um vídeo. ‘É tu aqui, não é? Na biqueira! Cadê a droga?’, esbravejou, à medida que dava umas cotoveladas nas costelas do meu filho. ‘Senhor, não fumo nem tabaco. Sou estudante. Curso o ensino médio. Está rolando algum engano’, defendeu-se o Guilherme em meio àquele breu.
Tentei entrar no quarto, mas os brutamontes não permitiram. ‘Quero ver as cenas. Como mãe do moleque, tenho o direito de conferir o vídeo’, argumentei. Os PMs continuaram me ignorando. ‘O que tu fazia na biqueira, mané?’, insistiu o policial atarracado. Ele acendeu a lanterna do celular e jogou a luz sobre os olhos do Guilherme. ‘Quero checar as imagens’, repeti. O sacana, porém, não as mostrou nem para mim, nem para ninguém. Por quê? Porque não existia gravação! O desnaturado espiava um vídeo qualquer no telefone.
Depois de pressionar bastante o rapaz, o PM abriu a janela do quarto, que dava para uma rua lateral. Colocou o Guilherme sentado no peitoril. Os agentes que rodeavam a casa se aproximaram e zombaram da desgraceira: ‘Que tesão! O maconheiro só de cuequinha!’ Meu filho chorava de horror e vergonha. Desde a infância, o Guilherme sonhava em ingressar na Polícia Militar. Agora, não pode nem ouvir falar da corporação. Ele nunca vai esquecer tamanha selvageria.
Quando se cansaram de humilhá-lo, os babacas vazaram com estardalhaço, como quem sai de uma festa. O Guilherme passou muito tempo sem conseguir relaxar. Tinha pesadelos recorrentes e acordava de madrugada, assustadíssimo. O Wellington também acusou o baque. Tornou-se mais dependente e nervoso. Temia ficar sozinho em casa. Para dificultar novas invasões, decidi reformar o imóvel. Botei grades nas janelas e aboli uma das duas portas de entrada. Gastei um dinheirão… Nem assim sosseguei. Morro de medo que outras barbaridades aconteçam.
Vou revelar um negócio super triste: não enxergo diferença entre policiais e bandidos dentro das comunidades. Nos bairros ricos, sim. Ali os representantes da lei tratam a população com respeito. Protegem, dialogam, pedem licença. Mas nas regiões pobres… Eles ameaçam, matam, roubam, destroem – igualzinho os criminosos. Já presenciei situações terríveis no Chapadão. Vi policiais furtando peças de carro, surrando traficante que se rendeu e até fuzilando uma menina. Ela estava numa padaria. O PM atirou de longe, abraçou o pracinha que o auxiliava e se vangloriou: ‘Não te disse que acertaria?’”

Saco na cabeça
“Faltavam dez minutos para as quatro da madrugada quando cinco policiais militares invadiram a nossa casa. Sou cria da Nova Holanda, uma das favelas que integram o Complexo da Maré. Minha neta e meu marido, Josias, dividiam comigo uma cama king-size. Não sei direito como os PMs entraram. Imagino que recorreram à chave mestra. A porta da frente, baratíssima, não oferecia muita resistência.
Era abril do ano passado. Perto das 6 horas, a polícia iria deflagrar uma grande operação na Maré. Os cinco pms, apressadinhos, resolveram começar a baderna mais cedo e escolheram justo a nossa residência. ‘Onde tu enfiou a pistola?’, gritaram para o Josias, ainda sonolento. Ele não entendeu nada. ‘Que pistola?’, perguntou. ‘Não banque o otário, negão! Entregue logo a pistola!’, exigiram os policiais.
Um dos homens arrancou o Josias da cama. ‘Tua ficha é suja?’, questionou. Meu marido, que vestia somente uma bermuda, contou a verdade: ‘Já puxei cadeia por roubo. Sete anos em regime fechado. Mas hoje estou na moral. Toco o barco como ajudante de pedreiro.’ Os PMs riram: ‘Ficha suja, né? Melhor ainda. Se a gente quiser, te arruma outro flagrante agorinha. Cocaína, maconha, loló… Será a nossa palavra contra a de um fodido. Que delegado vai acreditar em tu?’
Os cinco teimavam que o Josias escondia uma pistola, mas não esclareciam de onde tiraram a informação. Eu e minha neta continuávamos na cama. A garota arregalava os olhinhos e se esgoelava. Por ter o hábito de dormir nua, precisei me enrolar no lençol. ‘Deixem a Taís colocar uma roupa’, pediu meu marido. Os policiais não permitiram. Conduziram o Josias para a sala e me largaram no quarto com a criança, sob a mira de um fuzil.
Às quatro em ponto, o despertador tocou. ‘Está na minha hora. Levanto antes do Sol raiar porque trabalho longe’, expliquei. ‘Tu faz o quê?’, indagou o policial que permaneceu no quarto. ‘Sou faxineira, com carteira assinada’, respondi. E o cara: ‘Acho que tu vai se atrasar…’
Na sala, os outros PMs espancavam meu marido. ‘Ô, filho da puta, não vai mesmo revelar onde mocozou a pistola?’, berravam, enquanto o chutavam sem dó. Quando encontraram o carregador do meu celular, enforcaram o Josias de um jeito tão sinistro que o fio arrebentou. Em seguida, pisotearam a barriga e o peito dele. Também bateram na testa do pobrezinho com um daqueles martelos de borracha que assentam piso. Ficou um galo medonho.
Cada vez mais impacientes, os policiais cataram uma faca na cozinha e ameaçaram furar o Josias: ‘A pistola! Queremos o ferro, cacete!’ Meu marido gaguejou: ‘Por favor, chega de pancada! Me levem preso…’ Eu ouvia tudo do quarto, mas não podia me mexer. ‘Se tu arredar da cama, passo fogo’, prometia o PM com o fuzil. Enlouquecida, ainda procurei trocar uma ideia: ‘Moço, pelo amor de Deus, acalme os teus parceiros. Não precisa de violência… Minha neta vai morrer de tanto chorar.’
Às seis e vinte, o policial autorizou que nós duas saíssemos do quarto. Vi, então, que um saco de lixo cobria a cabeça do Josias. Os malditos o sufocavam, como no filme Tropa de elite. ‘Caso tu sinta que vai desmaiar, bata o pé’, ordenavam. Eu não parava de suplicar: ‘Tenham piedade! Meu marido não aguenta mais!’ Eles só interromperam a tortura às sete da manhã. ‘Vamos embora! O movimento na rua aumentou, e o puto é durão. Não vai confessar porra nenhuma’, disseram.
Logo que os PMs desapareceram, observei melhor a casa. Estava toda revirada. Os pestes tiraram as coisas do lugar, quebraram um pedaço do fogão, arruinaram a porta da geladeira e roubaram o telefone do Josias. Depois de registrar o estrago num vídeo, liguei para a minha chefe, relatei o episódio e lhe mandei as imagens. Ela me dispensou do expediente.
Com receio de que os policiais voltassem, abandonamos a casa e caminhamos até a Avenida Brasil, que atravessa a Maré. Um helicóptero da PM sobrevoava o Complexo. A gente se sentou na calçada e aguardou a operação terminar. Meu marido não quis buscar um hospital: ‘Vou falar o quê para os médicos? Que apanhei dos meganhas? Que tomei uma coça dos traficantes? Nas duas hipóteses, vai parecer que sou bandido.’
Sempre que me lembro daquela manhã, tremo de pavor, ódio e desgosto. A maldade da polícia nos afetou demais. Nem sei se um dia venceremos o trauma. Quando minha neta cruza com um PM, morde a boquinha, resmunga e agarra o meu pescoço. A menina tem apenas 1 ano e 4 meses…”
(revista piauí)

quarta-feira, 1 de janeiro de 2025

A arte da gentileza

Os “pôsteres de boas maneiras” que viraram tradição nos trens e metrôs japoneses

Quem gosta de design gráfico provavelmente sorri quando vê um tipo muito particular de cartaz que se espalha pela rede ferroviária do Japão. São os “pôsteres de boas maneiras”, batizados de manā posutā. Estações, trens e metrôs costumam exibi-los para recomendar ou desaconselhar certas atitudes dos passageiros. As sugestões pretendem garantir o conforto das viagens, aumentar a segurança e manter o transporte pontual.
É uma ambição nada desprezível num sistema que funciona bem acima da capacidade máxima. Se os milhões de usuários do serviço agirem de modo adequado, os embarques ocorrerão sem atropelos – ninguém vai atrapalhar o fechamento das portas ou se acidentar – e os vagões superlotados ficarão menos insuportáveis, além de partirem na hora.
Os cartazes, engenhosos e coloridos, lembram mais anúncios publicitários que placas de aviso. Ora se valem de fotografias, ora de desenhos. Às vezes, parodiam clássicos da pintura, como O grito, de Edvard Munch, ou brincam com astros do cinema e dos quadrinhos. Entre os temas que abordam, destacam-se o manuseio de bagagens, o uso de celulares e tablets, o descarte de lixo, a postura nos assentos e a modulação da voz durante as conversas. A ideia é educar pelo bom humor ou pelo lirismo.
As próprias companhias férreas, a maioria privatizada, concebem os pôsteres, geralmente em parceria com agências de propaganda. Os primeiros surgiram no reinado do imperador Taishō (1912-26). Esporádicos, simples e meio sisudos, pediam que os passageiros não se debruçassem sobre as janelas dos vagões, evitassem deslocamentos supérfluos em horários de rush e não esquecessem pertences dentro dos trens.
Só muito tempo depois é que os manā posutā tornaram-se habituais. Nos anos 1970, a Eidan, uma das empresas que operavam o metrô de Tóquio, chamou a atenção por lançar cartazes inovadores e divertidos todos os meses. Uma imagem de Marilyn Monroe, criada com aerógrafo em 1976, ilustrava um deles. O trabalho fez tanto sucesso que o público roubou 90% das cópias afixadas nas estações.
A iniciativa da Eidan inspirou outras concessionárias, e os “pôsteres de boas maneiras” viraram tradição. Em 2020, na pandemia, a West Japan, que serve cidades importantes como Osaka e Kyoto, distribuiu pelos trens inúmeros cartazes sobre as novas regras sanitárias. A turma do gato-robô Dorae­mon, um querido personagem de mangás, estrelou a campanha.
Antes, entre 2016 e 2018, a Seibu Railway desenvolveu talvez a série mais bonita de manā posutā. Com a ajuda da agência Dentsu, bolou nove pôsteres semelhantes às ukiyo-e, xilogravuras características do período Edo (1603-1867), fase em que o Japão se fechou para o mundo e gozou de certa paz. À época, a classe emergente dos comerciantes gastava muito com diversões e obras de arte. Na tentativa de atraí-la, mestres da ukiyo-e se dedicaram à confecção de gravuras que representavam justamente as predileções da burguesia em ascensão: o teatro Kabuki, as lutas de sumô, as gueixas, as cortesãs e a pornografia. As ilustrações também retratavam lendas populares, guerreiros e cenas da natureza.
Embora o estilo das ukiyo-e não seja tão conhecido dos brasileiros, as grosserias que os cartazes da Seibu Railway condenavam definitivamente são.
(revista piauí)

terça-feira, 1 de outubro de 2024

Planetas Terra

Um inventário das sementes do Brasil

Em meio à exuberância da flora nacional, a semente de gergelim destoa pela excessiva simplicidade, como um folião sem fantasia num baile de Carnaval. Era mais ou menos assim que Matheus Pockstaller – dono da Trovão Tropical, uma incubadora de projetos agroecológicos – encarava o minúsculo grão. Nada na sementinha oleaginosa, que pode medir entre 2 e 4 mm de comprimento, lhe despertava a atenção: nem o aroma, nem o formato, nem a cor (às vezes, branca; outras vezes, negra ou amarelada). Em novembro de 2021, porém, a impressão do rapaz mudou totalmente. Ele deixou o Rio de Janeiro e viajou de picape até Ribeirão Preto, cidade rica do interior paulista. Foi conhecer o assentamento Mário Lago, antiga fazenda canavieira que, depois de causar sérios danos ambientais e se tornar improdutiva, acabou ocupada pelo Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) e virou um polo agrícola sustentável.
Ali Pockstaller encontrou um lavrador cinquentão, de olhos azuis e pele alva, mas bastante queimada de Sol. Chamava-se Mariano Alves de Oliveira. Natural de Rubelita, em Minas Gerais, o assentado fez questão de mostrar para o forasteiro umas sementes de gergelim que armazenava com muito zelo. “Veja só que belezinhas! Elas me salvaram durante o período mais bravo da pandemia”, contou. Naquela fase tão difícil, a maioria das hortaliças que Oliveira produzia e negociava perdeu mercado. Em compensação (e por razões que o agricultor não sabia explicar), a demanda pelo gergelim aumentou. Cultivá-lo assegurou o sustento dele e de seus familiares. “O gergelim é meu amigo”, resumiu o mineiro, depois de detalhar o comportamento da herbácea. À medida que se expressava, sempre de modo cordial, Oliveira parecia acariciar os grãos.
O visitante se emocionou com o relato. “Nas metrópoles, não temos o hábito de reverenciar as plantas, ainda mais quando se trata de um espécime que julgamos sem graça. Aquele lavrador enxergava a beleza sutil do gergelim e não o considerava inanimado. Falava da personalidade dele como se estivesse descrevendo um bicho de estimação”, relembra Pockstaller, que completou 33 anos em agosto.
O episódio contribuiu para o carioca definir melhor os objetivos de uma empreitada que arquitetava havia um bom tempo. Surfista e lutador eventual de jiu-jítsu, o jovem graduou-se em relações internacionais e cursou um mestrado sobre resolução de conflitos, que não terminou por causa de “uma tremenda ansiedade”. Enquanto transitava pelo universo acadêmico, descobriu os ensinamentos do geneticista suíço Ernst Götsch, radicado desde 1982 num pequeno município baiano, Piraí do Norte, onde concebeu os princípios da agricultura sintrópica. O método possibilita o reflorestamento de regiões degradadas em paralelo ao plantio de legumes, frutas, verduras, ervas, cereais e leguminosas sem o emprego de fertilizantes sintéticos ou defensivos agrícolas industrializados. O lei­go que observar um ecossistema do gênero se imaginará diante de um bosque virgem. Não perceberá que o matagal é também uma lavoura.
Oito anos atrás, com o intuito de aplicar as lições do geneticista, Pocks­taller adquiriu um terreno de 2 mil m2 em São Conrado, bairro do Rio à beira-mar. A propriedade se localiza num vale agradável, próximo das turísticas pedras Bonita e da Gávea. A Mata Atlântica cobre parte considerável do espaço, que abriga uma casa térrea de traços modernistas e apenas um dormitório. O rapaz começou a transformação do vasto quintal logo que se instalou na residência. Com as próprias mãos, semeou várias espécies (comestíveis ou não) dentro da floresta nativa. Dessa maneira, criou uma área de agricultura sintrópica em plena capital fluminense. Uma das consequências mais intrigantes da técnica é a cooperação que se estabelece entre as plantas. Não à toa, a Mata Atlântica impulsionou o desenvolvimento dos vegetais cultivados pelo carioca, que revitalizaram a flora original, justamente como Götsch preconiza.
Em 2021, quando visitou o assentamento do MST, Pockstaller cogitava fotografar tanto as sementes que introduzira no terreno de São Conrado quanto outras vistosas e raras que andava juntando. Ele pretendia lançar um livro com os registros. Depois de ouvir o depoimento de Oliveira sobre o gergelim, concluiu que deveria valorizar menos a estética e mais a singularidade na hora de eleger os grãos que retrataria. Decidiu selecioná-los principalmente em virtude do que significam para quem os maneja e protege. Surgiu, assim, o Seeds Collective (Coletivo de sementes).
Da iniciativa, participam mais quatro jovens. A paulistana Carolina Latini, que estudou antropologia, é companheira de Pockstaller e sócia dele na Trovão Tropical. Gosta de surfar, trabalha como contrarregra no setor audiovisual e tocava baixo em bandas punks. O ítalo-brasileiro Riccardo Riccio, que cresceu entre Nápoles e o Rio, dedicou-se à gastronomia antes de abraçar a carreira de fotógrafo. Cozinhou em restaurantes no México, na Finlândia, na Inglaterra, na França e na Itália. A niteroiense Mirna Wabi-­Sabi fundou e comanda a editora Plataforma9, que publica majoritariamente obras de não ficção. Já Zurī Rosalino, uma mulher trans, é pesquisadora cultural. Única negra da turma, nasceu em Porto Velho (RO) e tem 26 anos. Os demais, à semelhança de Pockstaller, estão na faixa dos 30.
O Seeds Collective fotografou e catalogou 303 das inúmeras sementes que o carioca recolheu pelo país, inclusive a do gergelim. Por catalogar, entenda-se identificar os nomes vulgares e científicos das espécies, além de redigir textos curtos sobre cada uma delas. As notas não se limitam às informações de cunho botânico, histórico ou sociológico. Também abarcam conhecimentos medicinais e religiosos que advêm da tradição oral.
No começo de julho, o grupo lançou Seeds and tales, livro em inglês e português que agrega imagens de 101 daquelas sementes e seus respectivos verbetes. O volume, com 214 páginas, custa 160 reais e será o primeiro de uma trilogia. A Plataforma9 – que o editou e comercializa – aceita pedidos do Brasil inteiro, dos Estados Unidos, da Austrália e da Europa. Um site bilíngue (seedsandtales.com) divulga o projeto. O coletivo planeja, ainda, converter as fotos em quadros de altíssima resolução para expô-los e vendê-los como arte. As cópias menores sairão por 5 mil reais. As maiores, por 20 mil.

Quando iniciou o garimpo de grãos, Pockstaller já sabia bem o que procurava. Queria apenas as sementes crioulas. Ou melhor: as que não sofreram alterações genéticas em laboratórios nem tratamentos químicos. O plantio delas acontece de um jeito muito natural e cabe sobretudo às famílias de pequenos agricultores, geralmente oriundas de populações tradicionais, como as indígenas, quilombolas, caiçaras e ribeirinhas. Assentados do MST também as cultivam.
Para angariar as sementes crioulas, o carioca atravessou os seis biomas do país: Amazônia, Cerrado, Pantanal, Caatinga, Mata Atlântica e Pampa. Buscou exemplares típicos daqueles hábitats ou provenientes de outros lugares, mas que se adaptaram perfeitamente longe de casa. Ora o rapaz trocava os grãos que lhe interessavam pelos que sempre carregava na bagagem, ora os comprava ou recebia em doação. Quase todas as viagens ocorreram por terra. A picape bege que conduzia Pockstaller – uma Toyota Hilux – rodou uns 100 mil km. Ele só pegou avião uma vez. Em certas ocasiões, se deslocou de barco. Carolina Latini costumava acompanhá-lo.
O casal, que se uniu em 2019, não desperdiçava nenhuma chance de obter novas amostras. “Um dia, por exemplo, a gente parou num posto de gasolina para fazer xixi, e um cara bem simples se aproximou da nossa caminhonete. Papo vai, papo vem, soubemos que o sujeito plantava mandioca. Pronto: descolamos umas mudas do tubérculo com o homem”, recorda a paulistana.
Ela e o parceiro veem “as crioulas” como um tesouro biológico e cultural do Brasil. Um patrimônio extremamente plural que corre o risco de se extinguir devido à voracidade do agronegócio, da crise climática e das queimadas. “Claro que é fundamental documentar e exibir tamanha riqueza. No entanto, nos parece ainda mais essencial impedi-la de morrer”, ressalta Pockstaller. Por isso, o Seeds Collective se preocupou em propagar as sementes das 303 espécies fotografadas. “Plantei no meu terreno as que se relacionam melhor com a Mata Atlântica e mandei as outras para lavradores de todo o país sob a recomendação de que as cultivem”, afirma o jovem.
Recentemente, um dos agricultores avisou que colheu 4 kg de um milho azulado, o checche, cujas sementes ganhou do coletivo. “Ele está manejando o cereal há uns dois anos na serra fluminense. Não é maravilhoso?”, festeja Latini, que hoje divide a casa de São Conrado com Pockstaller. No quintalzão, junto às plantações, a dupla cria três cachorros grandes e cinco variedades de abelhas sem ferrão: a jataí, a bugia, a mombucão, a guaraipo e a mandaçaia. Os insetos, normalmente dóceis, fabricam mel de diversas cores – amarelo, branco, verde e âmbar. Vira e mexe, ratos-do-mato, porcos-­espinhos, tucanos, macacos, lagartos, cobras, pacas e outros animais silvestres dão as caras por lá, atraídos pela vivacidade da flora.
Uma parcela dos alimentos produzidos em São Conrado se destina às refeições do próprio casal. O que sobra é distribuído entre amigos, parentes e vizinhos. Para cuidar das lavouras, Pockstaller e Latini recorrem à ajuda de um caseiro pernambucano e do Horta na Favela, projeto de educação ambiental que reúne moradores da Rocinha e que também recebe parte da produção. A imensa comunidade, com 72 mil habitantes, fica perto do terreno.

A palavra milpa, do idioma asteca, designa um sistema agrícola milenar que indígenas do Sul mexicano e da América Central adotavam. O método consiste em cultivar o milho, o feijão e a abóbora no mesmo espaço, o que enriquece o solo e maximiza o crescimento das plantas. Daí os povos ancestrais denominarem o trio de “três irmãs”.
Herbívoros gigantescos, já extintos, circulavam pelo Cerrado durante a Era do Gelo ou Pleistoceno, que findou há 11 mil anos. Os mamíferos adoravam saborear o baru, o abacate e o jatobá, frutos com sementes muito rígidas. Como não conseguiam triturá-las, os bichões as defecavam inteiras e, assim, as espalhavam.
Curiosidades do tipo aparecem nos verbetes de Seeds and tales. Pockstaller escreveu a primeira versão dos textos. Mirna Wabi-Sabi complementou a pesquisa e se encarregou da redação final. Com uma câmera digital Canon, uma lente ultramacro de 70 mm e um flash, Riccardo Riccio tirou os retratos ampliados das 303 espécies. A casa de São Conrado serviu de estúdio. “Posicionei cada semente num fundo preto e a fotografei em cem distâncias diferentes”, explica o ítalo-brasileiro. “Depois, usei um software para sobrepor todas as imagens.” Batizada de focus stacking, a técnica permite registrar as mínimas nuances de um objeto e resulta em fotos bastante nítidas.
Desde o nascimento, Riccio enfrenta um transtorno ocular degenerativo e progressivo, a doença de Stargardt, que lhe roubou 90% da visão. “Enxergo tudo embaçado. O pior é que nenhum óculos, lente de contato ou cirurgia resolve o problema. Graças à ultramacro, os grãozinhos crioulos adquiriram uma clareza que meus olhos – e, talvez, os de qualquer humano – jamais captariam naturalmente.”
O fotógrafo e a Trovão Tropical financiam o Seeds Collective, que gastou cerca de 150 mil reais até agora. “Trata-se de um trabalho em permanente continuidade”, enfatiza Zurī Rosalino. “Se depender de nós, vamos catalogar e disseminar o maior número possível de sementes.” Uma fração dos lucros trazidos pelas vendas dos quadros irá para agricultores familiares, hortas urbanas, ações de reflorestamento e militantes que promovem a causa ecológica.
O modo de retratar os grãos acabou por deixá-los parecidos com planetas que flutuam na escuridão do Universo. “Faz um baita sentido, né?”, diz Pockstaller. “Sementes são mesmo planetinhas, umas cápsulas de energia e potencialidades que garantem a existência do nosso planetão.”
(revista piauí)

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